Nove operações policiais em 2026 deixaram sete pessoas mortas durante atuações de agentes do Estado. Sem perícia e preservação das cenas dos crimes, moradores ficam com traumas e cenas de horror em suas ruas.
Por Thayssa Rios
Uma operação policial não acaba quando termina. Pelo menos não para os moradores dos territórios de favela. No dia 7 de abril deste ano, o Conjunto de Favelas da Maré despertou às 5h da manhã com a sétima operação policial do ano, que durou até às 18h30, ultrapassando mais de 14 horas de ação com a presença dos agentes de segurança.
Nesta mesma operação, foi registrada a sexta morte do ano de 2026 em operações policiais na Maré, de acordo com o monitoramento realizado pelo Eixo Direito à Segurança Pública e Acesso à Justiça da Redes da Maré. Além da sexta morte do ano, duas pessoas foram baleadas.
Quando acontece operações policiais, não é só quem é atingido por arma de fogo que sai ferido. Os impactos no cotidiano dos moradores do território e as violações de direitos deixam marcas difíceis de serem apagadas: seja nas paredes das casas e comércios com rastro das balas ou na memória de quem vive situações violentas.
Violações e traumas
A sétima operação policial deste ano ocorreu nas favelas Parque União, Rubens Vaz, Nova Holanda e Parque Maré. Entre as vítimas estão três homens. Segundo relatos dos moradores, nenhum deles recebeu socorro médico no local. Apesar da operação ter contado com a disposição de ambulâncias da GESAR (Grupamento Especializado de Salvamento e Ações de Resgate) no entorno das favelas (na Avenida Brasil) nenhum protocolo de socorro foi acionado para socorrer as vítimas.
Renan dos Santos Lima, de 29 anos, foi atingido por volta das 17h em uma das esquinas da Rua Sargento Silva Nunes, localizada na Nova Holanda. Próximo ao mesmo horário, também na Nova Holanda, mais outros dois moradores, ambos de 21 anos, também foram baleados e socorridos pelos próprios amigos.
“Na hora do desespero, eu corri. Ouvia ele gritando ‘me balearam, me balearam’. E aí ele caiu no chão, foi quando uma colega minha voltou e começou a arrastar ele para dentro da nossa rua”, lembra a jovem. “O outro baleado conseguiu correr até a porta da minha casa, foi quando olhei pra ele e perguntei se estava bem. Ele disse que sim e que estava sentindo o tiro da barriga queimar. Eu comecei a amarrar a blusa no ferimento, até que os amigos dele o colocaram nas costas para levar para o hospital”.
“Primeiro o tiro bateu no poste, mas ia bater na cara de uma garota. Ela começou a gritar ‘sai, sai, sai’. Então nós corremos para dentro da rua e, foi ali mesmo, onde ele caiu assim que levou o tiro. Quando o tiro bateu no poste, deu pra ouvir mais dois que bateram dentro da rua (a que eles correram). Eu estava na calçada, ele estava mais a frente próximo ao outro menino. Quando eu senti que o tiro ia bater nas minhas costas, eu abaixei e corri para dentro da rua. Ele virou e o tiro bateu na perna dele (o que estava na frente), atravessou ele e pegou em mais um garoto”, conta uma jovem de 21 anos, que presenciou pela primeira vez duas pessoas serem baleadas na sua frente. Uma das vítimas é seu amigo.
Segundo a jovem, eles estavam sentados na esquina de casa porque acharam que a operação, que começou por volta das 5h da manhã, já havia acabado no fim da tarde. Um dos rapazes foi baleado na barriga e o outro na perna.
Falta de socorro
Ao relatar a cena, a jovem lembra que os jovens feridos foram socorridos pelos próprios moradores, que os levaram de moto até uma kombi que seguiu com os dois para o hospital mais próximo da Maré.
“Foi um desespero. Eu chorei porque também foi um livramento pra mim. Eu poderia ter tomado um tiro nas costas, e eu não ia aguentar, né?”, afirma a jovem. Para ela, aos 21 anos, acordar no dia seguinte após ter vivido essa situação foi uma vitória, mas ao mesmo tempo um trauma que ela ainda não sabe como lidar. “Hoje (no dia seguinte à operação policial) eu estou com um sistema nervoso que toda hora fico fazendo assim (abaixando), porque achei que as balas iam bater nas minhas costas. Hoje eu acordei quase me mijando de desespero, pensando no que aconteceu. Ainda quase matei minha mãe porque ela passou mal. Mas, mesmo com isso tudo, só tenho que agradecer mesmo porque estou viva, né?”, finaliza o relato da jovem que pela primeira vez precisou ajudar a salvar pessoas feridas.
Algumas ruas a frente, um pouco antes do momento narrado pela jovem, Renan já tinha sido atingido. De acordo com informações, ele foi colocado na caçamba de um carro do Bope e levado ao Hospital Geral de Bonsucesso. Vale lembrar a presença de pelo menos uma ambulância da GESAR no entorno da operação, que não prestou atendimento e socorro no local. Ele chegou com vida ao hospital, mas morreu por volta das 19h do dia 7 de abril. Ao chegar no hospital e logo em seguida do ocorrido, os familiares do Renan ainda ficaram algumas horas sem informações da situação dele e sem permissão para identificá-lo.
Acolhimento
Durante operações policiais, o Maré de Direitos, projeto do eixo Direito à Segurança Pública e Acesso à Justiça da Redes da Maré, realiza um plantão de acolhimento para situações de violações de direitos, presencialmente na Maré e pelo WhatsApp (21) 99924-6462. O endereço é divulgado nas redes sociais da organização a cada operação.
Nos dias seguintes às operações policiais, a equipe realiza uma Busca Ativa pelo território. O objetivo desta ação é confirmar as apurações recebidas durante os plantões de operações policiais e, sobretudo, oferecer escuta e apoio aos moradores. Nesta busca, são feitas visitas aos comércios locais e as casas para divulgar o serviço prestado e ouvir os relatos de quem se sinta à vontade para falar ou fazer denúncias. Além desta atuação, a equipe da Redes da Maré, que recebe dos moradores denúncias de violações, está em contato com as famílias das vítimas.
Através dos relatos, foi encontrada a esquina em que o Renan foi atingido. Nela ainda havia a marca de uma poça de sangue no chão, que sem resguardo da cena do crime e nem perícia realizada no local, acabou sendo lavada por uma comerciante que precisava retomar a sua rotina para não ter mais um dia de trabalho perdido.
“Eu não estava aqui ontem, não vi como foi, mas precisei limpar para poder abrir minha loja hoje e trabalhar”, relatou a comerciante. Um pouco a frente, outro estabelecimento teve perfuração no teto e marcas na parede. “Eu não abro em dia de operação, hoje cheguei e vi essas marcas. Não tinha isso antes, foi ontem (dia 7 de abril), então que bom que eu não estava aqui”, relata o comerciante enquanto apontava para uma das marcas na parede próxima a altura da sua cabeça.
Saúde e educação impactados
Aquele foi mais um dia em que uma operação policial atingiu de forma intensa a rotina dos moradores e provocou uma série de violações de direitos. Os relatos discorrem sobre os intensos tiroteios, a presença de agentes da segurança e carros blindados da polícia circulando, de forma contínua, no território durante as 14h de operação. Vídeos e postagens nas redes sociais ilustraram como tantos moradores tiveram o seu direito de ir e vir, para suas próprias casas, negado.
Além do impacto de um dia perdido para o comércio local, a sétima operação policial do ano interrompeu aulas e atendimentos da saúde. Segundo dados do monitoramento de operações policiais do projeto De Olho na Maré (Dom), também do eixo Direito à Segurança Pública e Acesso à Justiça da Redes da Maré, mais de 9.500 alunos não foram à escola no dia 7 de abril – este ano já se somam sete dias letivos perdidos devido a operações policiais com confrontos armados.
Naquele dia, 27 escolas foram fechadas na Maré, duas da rede estadual e 25 da rede municipal, totalizando os mais de 9.500 alunos sem aula. Se para cada aluno houver um responsável que precisa sair para trabalhar, na tutela de quem ficam essas crianças e adolescentes? E quem cobre o dia perdido do trabalho dos familiares?
Na saúde, o atendimento da Clínica da Família Jeremias Moraes da Silva foi suspenso e na Diniz Batista dos Santos o funcionamento foi impactado, com a suspensão das visitas domiciliares. São centenas de atendimentos aguardados por meses adiados. Os custos de uma operação policial dessa magnitude não entram na conta da medição de sucesso da ação realizada pelo Estado.
Descumprimentos de determinações
A equipe da Redes observou três descumprimentos da ADPF 635 (ADPF das Favelas) nesta operação: a ausência de uso de câmeras corporais em parte dos agentes da segurança presentes no território; a falta de realização de perícia e de preservação das áreas onde aconteceram as violações e mortes; e, apesar da presença de ambulâncias, as mesmas não foram utilizadas para prestação de socorro. Uma das vítimas letais foi levada na caçamba da viatura do BOPE/PMERJ. Pouco mais de um ano da decisão do Supremo Tribunal Federal para cumprimento de medidas na ADPF das Favelas, violações ainda acontecem nos territórios.
Em nota, a Polícia Militar informou que para a operação do dia 7 de abril foram mobilizados mais de 250 agentes do Batalhão de Operações Policiais Especiais (BOPE), do Batalhão de Polícia de Choque (BPChq), do Batalhão de Ações com Cães (BAC), Batalhão Tático de Motociclistas (BTM), Grupamento Aeromóvel (GAM) e 22º BPM (Maré). Além de quatro blindados e duas aeronaves na operação que provocou a interrupção de serviços essenciais no território:
“A operação teve como principais objetivos coibir a atuação de grupos criminosos, reprimir roubos de veículos e de cargas, além de garantir maior sensação de segurança à população local”, destacou a nota da PM. No fim da noite de terça-feira, foi divulgado que cerca de três toneladas de maconha, quatro fuzis e quatro pistolas foram apreendidos na Nova Holanda. Ainda de acordo com a PM, foram recuperados nove carros e 17 motocicletas. Um suspeito teria sido detido e encaminhado para a 21ª DP (Bonsucesso), junto ao material apreendido. Equipes do Batalhão de Policiamento em Vias Expressas (BPVE) teriam intensificado o policiamento ao redor das comunidades para “preservar a segurança dos usuários das vias”, mas, para os moradores, os relatos sobre o policiamento ostensivo foram de medo e insegurança de não saber quando poderiam retornar para suas casas.
A violência segue
Após essa, no dia 5 de maio, os moradores da Maré viveram a oitava operação do ano. Foram impactadas principalmente as rotinas dos moradores do Morro do Timbau, Baixa do Sapateiro, Nova Maré, Nova Holanda, Parque Maré, Rubens Vaz e Parque União, onde os confrontos se concentraram. Ao todo, 41 unidades escolares municipais foram impactadas e duas estaduais precisaram ser fechadas deixando 15.912 alunos novamente sem aula. Três unidades de saúde tiveram os atendimentos afetados na região.
No dia 10 de junho, a nona operação aconteceu nas favelas Conjunto Esperança, Salsa e Merengue, Vila dos Pinheiros, Vila do João, Bento Ribeiro Dantas, Nova Maré, Baixa do Sapateiro e Morro do Timbau. 42 escolas da rede municipal e duas da estadual foram fechadas, deixando 16.092 estudantes sem aulas por mais um dia letivo. Quatro unidades de atenção primária suspenderam os atendimentos: a Clínica da Família Augusto Boal, a Clínica da Família Adib Jatene, a Clínica da Família Jeremias Moraes da Silva e o Centro Municipal de Saúde Vila do João.
Todas as informações coletadas com moradores a partir do trabalho da equipe da Redes da Maré durante as operações policiais são reunidas e encaminhadas ao monitoramento do Grupo de Trabalho da ADPF 635, instituído para a preservação da decisão do STF, em abril de 2025. O objetivo é construir indícios e possíveis provas que possam, na ausência de perícia nos territórios dos Conjuntos de Favelas da Maré, servir como embasamento nas investigações policiais, nas ações criminais e no cumprimento do controle externo da atividade policial.
Além do plantão presencial e acolhimento realizado pela Redes da Maré, o Ministério Público do Estado do Rio de Janeiro (MPRJ) mantém um plantão especial para atendimento à população. O serviço gratuito pode ser acessado pelo telefone e WhatsApp (21) 2215-7003 ou pelo e-mail gt-adpf635@mprj.mp.br.