Entre acolhimento, cursos e encontros, moradoras encontram apoio para enfrentar dificuldades e construir seus próprios caminhos
Por: Gracilene Firmino
Inaugurada em outubro de 2016, a Casa das Mulheres da Maré (CDMM) é um espaço criado pela Redes da Maré para impulsionar o protagonismo das mulheres do território mareense. O equipamento em seus projetos e ações tem como objetivo contribuir para a melhoria da condição de vida dessas mulheres. A Casa concretiza e reconhece os papéis femininos históricos no surgimento de movimentos sociais e de lutas ligadas à infraestrutura na Maré, desde a década de 80. Mais de 3.000 mulheres, de 16 a 70 anos, já foram atendidas pela CDMM, ao longo da última década, no Conjunto de Favelas da Maré.
A CDMM, que fica no Parque União, tem atuado ainda como espaço de troca com instituições locais, públicas e privadas, para construção de novas parcerias e articulações na área dos direitos das mulheres, com pesquisas que visam transformar em dados o cotidiano das mulheres na Maré. Entre elas, o estudo de Enfrentamento à Violência Urbana de Gênero, desenvolvido em parceria com a King’s College London, e a pesquisa Saúde Sexual e Reprodutiva: o que dizem as mulheres da Maré.
Para Edna Marcia Filó, de 57 anos, a Casa se fez presente em um momento muito difícil de sua vida. “Fiquei viúva em janeiro de 2022. Meu marido infartou voltando da caminhada e morreu na hora. Foi um baque muito grande para mim, meus filhos e neto. Busquei ajuda na Psicologia na Casa das Mulheres, pois eu só sabia chorar e pensei que fosse entrar em depressão. Logo em seguida, comecei a participar do grupo terapêutico. Aos poucos fui me libertando e buscando ajuda. Depois comecei a fazer os cursos da Casa, os passeios para estar sempre em contato com outras mulheres que passavam por situações semelhantes à minha.”
Dentro da metodologia de formação, o equipamento também possui a frente de orientações profissionais que, em 2025, possibilitou formação em gestão, empreendedorismo e marketing para 44 mulheres empreendedoras. Também há investimento em capital semente, que é o valor inicial usado para ajudar uma empresa a sair do papel e desenvolver seu produto, a partir do método de aceleração previsto na frente.
Foi o que aconteceu com Edna. “Fiz vários cursos lá, gastronomia, marketing básico e avançado. Também sou empreendedora, confecciono bolsas e pochetes, e nós participamos de uma feira quinzenal que acontece na Petrobras, conquistada com a ajuda da Casa das Mulheres. Eu já era empreendedora, empreendo desde 2010, e o curso de marketing ajudou muito. Antes era tudo muito amador. No último curso que fiz, tive ajuda até com material, eles chamavam de capital semente. Foi uma ótima ajuda”, conta Edna.
A CDMM atua na trajetória integral da mulher, viabilizando a garantia de direitos, defendendo a saúde sexual e reprodutiva e pautando a favela como formuladora de políticas. “O que marca é ver mulheres que passaram pela Casa nos primeiros anos trabalhando, construindo o próprio espaço, gerando renda, produzindo conhecimento, atuando como ativistas de seus direitos e assumindo o protagonismo de suas trajetórias dentro e fora da Maré”, diz Mariana Aleixo, uma das coordenadoras do equipamento.
As atividades oferecidas no local se encaixam em diferentes frentes de trabalho: qualificação profissional, enfrentamento das violências contra as mulheres, atendimento sóciojurídico e psicológico e a articulação territorial para a criação de uma agenda positiva nas políticas públicas para as mulheres.
Uma celebração da cultura alimentar da Maré
Um dos projetos da Casa das Mulheres da Maré que impacta a vida das moradoras e dos moradores e aquece a economia da região é o Comida de Favela, que este ano chega à sua quarta edição. Em outubro, o evento volta a celebrar a gastronomia mareense. O público experimenta, vota e ajuda a escolher o melhor prato da Maré.
“O Festival Comida de Favela vai muito além de um evento gastronômico; ele se afirma como um ato político de celebração da cultura alimentar mareense e de fortalecimento econômico do território”, conta Mariana. Ao reunir e valorizar a diversidade de sabores, o festival insere a gastronomia da Maré no circuito da cidade do Rio de Janeiro, afirmando o território como um polo de gastronomia e inovação cultural.
Além do impacto financeiro, o evento promove o direito à cidade e a quebra de estigmas ao incentivar a circulação entre as 15 favelas da Maré. Integrada a esse circuito gastronômico, a edição deste ano conta com a promoção da campanha Maré sem Assédio. O objetivo é garantir um ambiente seguro e acolhedor para moradoras e visitantes, transmitindo nos bares, estabelecimentos e espaços públicos a metodologia de enfrentamento e prevenção às violências de gênero, promovida pelas ações da Casa das Mulheres da Maré.
O Festival Comida de Favela acontece entre 1 e 30 de outubro de 2026, 16 estabelecimentos vão concorrer em duas categorias: Bar, Pensão e Restaurante e Comida de Rua e Quiosque. A iniciativa valoriza a culinária tradicional, a criatividade e fomenta o potencial econômico da gastronomia local.
Serviço – Casa das Mulheres da Maré
Horário de funcionamento: segunda a quinta, das 8h às 21h; sexta, das 8h às 17h e sábado, das 9h às 15h.
Secretaria: segunda a sexta, das 10h às 16h
Atendimento sociojurídico e psicológico gratuito para mulheres: sábado, das 9h às 13h (exceto feriados)
Endereço: Rua da Paz, 42 – Parque União
Telefone: (21) 3105-5569
WhatsApp da Redes da Maré: (21) 99924-6462