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Como e por que a Maré votou?

Foto: Gabi Lino | Eleições na Maré tiveram filas com horas de espera e abstenção de pelo menos 28%

Por Eliana Sousa Silva, diretora fundadora da Redes da Maré Artigo publicado no Jornal O Globo em 06 de outubro de 2026

Com 125 mil moradores e 60.292 eleitores, a Maré tem força eleitoral expressiva. Entender como os moradores votam exige ir além das urnas: quem consegue votar e como esses votos se convertem em direitos, investimentos e representação?

O direito ao voto começa antes da eleição. Na Maré, 62% da população é preta ou parda, 51% são mulheres e 44% dos domicílios têm mulheres responsáveis pelo sustento. Renda, mobilidade e responsabilidades de cuidado condicionam a participação política. A ideia de que moradores de favelas não sabem votar ou são facilmente manipulados é preconceituosa. Desconsidera sua capacidade de escolha e encobre estruturas que transformam desigualdades em vantagens eleitorais. Quando serviços dependem de intermediários políticos, direitos são apresentados como favores. Enfrentar isso exige políticas universais, contínuas e transparentes e instituições que cumpram suas responsabilidades.

O projeto “Como Vota a Maré?”, da Redes da Maré, investiga essas dinâmicas em relação a direitos que estão negligenciados para as populações empobrecidas e a relação com as escolhas eleitorais dos moradores. Serve como exemplo a disputa estadual de 2022, na qual o candidato Marcelo Freixo teve maior apoio em áreas atingidas por operações policiais, como Nova Holanda e Parque Maré. Já o candidato Claudio Castro, obteve suas maiores vantagens nas favelas Praia de Ramos e Roquete Pinto, onde não há registros de operações no período considerado. Não há relação automática entre violência e voto, mas experiências distintas com o Estado ajudam a compreender escolhas políticas.

Há duas zonas eleitorais que abrangem as seções da Maré: as 161ª e 162ª zonas.  A 161ª é a mais representativa, pois cerca de 60% de suas seções estão localizadas dentro do território da Maré ou em seu entorno próximo. Já na 162ª, apenas 7% das seções estão localizadas de tal modo. Tomando como exemplo essas duas zonas, os resultados da votação para presidente e governador no último domingo, evidenciam uma particularidade em relação à média da cidade, uma no sentido se assemelharam e outra de se diferenciar.

Na 162ª zona eleitoral, em que a participação dos eleitores da Maré é pequena, os resultados se assemelham muito ao da cidade do Rio de Janeiro, com a vantagem de Flávio Bolsonaro, para presidente, e de Eduardo Paes para governador, com percentuais que variam menos de um ponto percentual daquele que ambos alcançaram no resultado geral da cidade.

Entretanto, na 161ª zona eleitoral, em que mais da metade das seções abrigam os moradores da Maré, Lula venceu Flávio Bolsonaro por uma diferença de 14 pontos percentuais, alcançando quase 10 pontos a mais do que obteve na cidade. E, para governador, Eduardo Paes teve 8 pontos percentuais a mais do que a sua média na cidade.

Obstáculos para exercer o direito ao voto

No entanto, a participação dos eleitores enfrentou um obstáculo em 2026: a transferência de locais de votação sob a justificativa das favelas da Maré constituírem uma área de risco. O TRE-RJ anunciou mais de 70 remanejamentos, afetando cerca de 200 mil eleitores em 20 municípios. Na Maré, as mudanças de locais atingiram 31.650 pessoas, mais da metade do eleitorado.

Falta transparência sobre quais critérios justificam a retirada de algumas seções e a manutenção de outras na mesma região. Em dez anos de monitoramento, o projeto “De Olho na Maré” não registrou confrontos armados nos dias de eleição. A memória trágica remete a 2006, quando Renan, de três anos, morreu por tiros de policiais que reforçavam a segurança eleitoral. Os locais transferidos funcionam em escolas municipais. Se esses prédios recebem crianças diariamente, por que seriam inadequados para adultos votarem por algumas horas? Sem critérios transparentes, a decisão reforça o estigma da favela como território perigoso e desconsidera a sua organização comunitária.

Como chegar às novas seções? Poucos quilômetros pesam onde não há transporte público interno, sobretudo sem informação clara. Assim, o voto não pode ser garantido na teoria e inviabilizado no momento de o morador exercê-lo na prática.

Em disputa estão projetos de Estado, segurança, cidade e direitos. A força eleitoral da Maré precisa se transformar em influência concreta. A qualidade da democracia se mede também pela capacidade dos territórios populares de participar das decisões sobre seu presente e futuro.

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