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COMO O ‘EL NIÑO’ É PERCEBIDO NA MARÉ

Foto © Douglas Lopes

Moradores e especialistas relatam como eventos extremos afetam as favelas e cobram políticas públicas de adaptação climática

Por: Hélio Euclides

Edição #170 – Jornal Impresso do Maré de Notícias

Rajadas de vento acima de 90 km/h atingiram o Rio de Janeiro no final da tarde de 29 de julho. O encontro de uma frente fria com uma massa de ar quente causou inúmeros transtornos, assustando a população e causando a morte de duas pessoas. A Maré teve ventos de 42 km/h, medidos pela estação meteorológica instalada no Parque União, que — mesmo menos violentos que em outros pontos da cidade — causaram o destelhamento de casas, fizeram caixas-d’água voarem e provocaram falta de luz em diversas localidades por dias.

De lá para cá, a cidade já teve outros alertas de eventos extremos. Para especialistas, tudo isso ocorre com o início da ação do El Niño. O fenômeno se caracteriza pelo aquecimento anormal das águas superficiais do Oceano Pacífico Equatorial.

No Brasil, o El Niño tem impactos de seca no Norte, Nordeste e parte do Centro-Oeste, chuvas em excesso na Região Sul e, no Sudeste, ondas de calor mais intensas e frequentes. O fenômeno ocorre em um cenário de aquecimento global, com mudanças climáticas extremas, causando prejuízos para a agricultura e a escassez no abastecimento de água. Para Kaya Mendes, moradora da Nova Holanda, comunicadora popular e integrante do coletivo Eco Gerações, que leva o tema meio ambiente às escolas, o El Niño traz três pontos que afetam o planeta: o econômico, o alimentar e o climático.

Quando o assunto são os impactos na favela, ela é taxativa. “No território não temos adaptação, isso faz com que não suportemos os fenômenos extremos. A adaptação é a preparação de uma estrutura para os impactos, já a mitigação é a redução dos danos com uma educação por parte da sociedade. São meios de incidências diretas que precisam estar presentes na favela. A justiça climática não chegou ao cotidiano do favelado, o que se vive é o racismo ambiental. Hoje viramos um laboratório das instituições governamentais. E ainda colocam a culpa no morador pelos problemas, sem responsabilizar as grandes empresas”, conclui.

A necessidade de políticas públicas

Quando se fala de clima, muitos são saudosistas, lembrando como eram as estações. “Está muito quente o tempo, há um desajuste. Cada vez está pior, pois não temos mais inverno, é só verão. Isso é resultado do ser humano que destrói a natureza. O medo é piorar, pois há muito incêndio nas florestas e desmatamentos. O leite já foi derramado, infelizmente as crianças daqui a 20 anos não vão ver esta natureza de hoje”, reflete Célia Silva, moradora do Parque União.

Bruno Filipe, geógrafo especializado em meio ambiente, explica quais são as causas do agravamento dos eventos climáticos extremos em todo o mundo. “As emissões de carbono desenfreadas intensificaram este fenômeno, que dura aproximadamente de 9 a 12 meses. O El Niño influencia o clima em todo o continente americano e parte da Oceania e Sudeste Asiático. As mudanças climáticas vão influenciar cada vez mais as nossas vidas. Rico, pobre ou classe média, precisamos de políticas públicas que priorizem investimentos em habitação, retirando pessoas que moram em encostas e margens dos rios”, detalha, lembrando que o Brasil passou por décadas de descaso com o saneamento e o planejamento urbano.

Divulgados pelo Instituto Trata Brasil, os dados do Sistema Nacional de Informações em Saneamento Básico (SINISA), de 2024, mostram que 15,9%, cerca de 33 milhões de brasileiros vivem sem acesso à água potável e que 43,3%, ou seja, 90 milhões não contam com coleta de esgoto. Além disso, apenas 51,8% do esgoto gerado é tratado.

“São necessários investimentos robustos em tratamento de esgoto, canalização e distribuição de água tratada. É um absurdo, mas, em Costa Barros, onde eu resido, ainda há inúmeras famílias que não são contempladas com esses serviços. Precisamos de arborização em massa e bebedouros públicos para atenuar os efeitos das ondas de calor que serão cada vez mais frequentes. Também não podemos esquecer dos abrigos climatizados para pessoas em situação de rua. Nós, que somos os eleitores, devemos colocar a questão ambiental como prioridade”, finaliza.

Pesquisa e soluções baseadas na natureza

No final de agosto, ocorreu uma avalanche que se converteu em uma violenta enxurrada e atingiu cidades entre o Nepal e a China. Até o início de setembro, foram registradas mais de mil mortes e mais de 4 mil desaparecidos. Segundo especialistas, o aquecimento global, que acelera o derretimento e a instabilidade das geleiras, explica o aumento da intensidade e da frequência deste tipo de evento extremo. Contê-los demanda um esforço mais amplo de governos e grandes empresas, com políticas de mitigação e adaptação capazes de responder à escala da crise climática.

Anteriormente, ainda no mês de agosto, o Governo Federal promoveu encontro virtual com a sociedade civil da região Sudeste para debater as políticas públicas voltadas às emergências climáticas. Com o objetivo de elaborar um Plano de Ação, a Secretaria de Estado de Saúde do Rio de Janeiro realizou, no mesmo período, oficinas para preparar os 92 municípios fluminenses contra os impactos do El Niño na saúde pública. A Prefeitura do Rio, por meio de alertas emitidos, envia aos celulares avisos de emergência e informações sobre os estágios operacionais da cidade.

Outras iniciativas são implementadas por organizações que atuam diretamente nos territórios. É o caso do CliMaré, realizado pelo Eixo Direitos Urbanos e Socioambientais da Redes da Maré. A ação acompanha de perto as condições das casas de moradores da Maré pensando no conforto térmico.

Primeira estação meteorológica e de monitoramento permanente
da qualidade do ar instalada em uma favela do Rio de Janeiro.
Foto: Douglas Lopes

“Sofremos na pele essas mudanças climáticas. Trazer conhecimento de forma acessível é fundamental, pois hoje o meio ambiente é pautado, mas não inclui as favelas. Não há dados oficiais, então o projeto tem o olhar de geração de dados para cobrar do poder público medidas de mitigação para o território”, explica Anna Carolina Fraga, moradora do Salsa e Merengue, estudante de biologia e agente climática do projeto CliMaré.

Saionara Claudino, moradora do Rubens Vaz, teve o telhado verde, do projeto Ecoclima, implantado na sua casa. Agora, por meio do projeto CliMaré, além de um sensor que avalia qualidade do ar dentro de sua casa, vão ser instalados em sua sala revestimentos para o combate à umidade. “Quem mora em comunidade não tem para onde correr, esperamos projetos com um olhar para a favela, que diminuam a poluição e o lixo. O inverno e o outono agora têm dias oscilando de calor e chuva num período que não é comum, o que causa mais alergias”, reclama.

Ao lado dessas respostas de maior escala, ações menores também podem contribuir para ampliar a mobilização e a consciência ambiental nos territórios. Nádia Lima, moradora do Conjunto Bento Ribeiro Dantas, acredita na importância de espalhar cada vez mais verde pelas favelas e, para isso, vende plantas com a família há 20 anos.

“Muita gente vem comprar, e as espécies mais procuradas são o comigo-ninguém-pode e a palmeirinha. Acredito que com mais verde, haverá menos poluição. Com um trabalho de educação ambiental junto às crianças e o não desmatamento, a natureza vai melhorar”, resume.

Iniciativas como essa ajudam a aproximar o debate climático do cotidiano e a ampliar a mobilização da população, sem substituir a responsabilidade de governos e grandes empresas na implementação de medidas capazes de enfrentar o problema em maior escala.

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