Escola Bahia resgata sua memória enquanto busca caminhos para a educação do presente,
entre gerações de alunos, professores e moradores.
Por: Flavia Veloso
Em 1936, não existia Maré, não como a conhecemos hoje, como um bairro, um lugar com ruas, casas e moradores. Sua ocupação só foi começar na década de 1940, com as palafitas no Morro do Timbau e os aterros na Baixa do Sapateiro. Não havia também Avenida Brasil, que só foi inaugurada em 1946. Mas, nessa época em que era quase tudo água nessa região, brotou uma semente que acompanharia toda essa história: a Escola Bahia.
A tradicional escola nasceu sob o modelo idealizado pelo secretário de educação da época, Anísio Teixeira. O filósofo e escritor defendia uma educação integral para as escolas públicas, que fosse além da sala de aula, de maneira que o prédio dessas escolas contasse com salas de oficinas, teatro, biblioteca, refeitório, jardins, áreas livres e até local para tratamento dentário, com espaço amplo que suportasse centenas de alunos. O objetivo do secretário era nobre: democratizar a escola e recuperar os ambientes de sociabilidade para as populações que haviam sido marginalizadas para periferias e morros em decorrência das reformas urbanas realizadas no início do século XX.
O passado conectado ao presente
Hoje, a Escola Bahia funciona sob um novo modelo, de Ginásio Educacional Tecnológico (GET), com horário integral e metodologias de ensino que buscam conectar os alunos às novas tecnologias e colocá-los como protagonistas dos processos de aprendizagem.
A Escola Bahia tem feito um trabalho de resgate histórico e afetivo dos seus 90 anos de história. O time de professores, liderado por Cristiane Nascimento nesse projeto de resgate, ex-moradora da Maré e professora de História na escola há 6 anos, planejou uma série de ações para estreitar o vínculo entre os estudantes, a escola e o território. Até agora, já foram feitos vídeos pelos alunos no Colaboratório (uma sala multimídia onde os alunos desenvolvem diferentes habilidades com a ajuda de tecnologias), concurso de desenhos e até uma parceria com o Museu da Maré.
Para Cristiane, celebrar os 90 anos da escola vai além de marcar a data com uma festa: o objetivo é fortalecer entre os estudantes a ideia de pertencimento e mostrar como a história da Escola Bahia se mistura à trajetória de famílias inteiras da Maré. A professora conta que a equipe buscou transformar essa memória, presente inclusive nos sobrenomes que se repetem entre gerações de alunos, em algo que fizesse sentido para quem estuda ali hoje.
“Essa atividade que eu fiz, com metodologia de história oral, foi muito legal, porque teve uma menina que contou que os avós se conheceram aqui. Eles eram alunos, começaram a namorar e depois foram morar juntos. Quer dizer, uma família se formou. Depois dessa conversa, a relação dela com a escola mudou um pouco. Então, é fazer esse resgate dentro dessa rotina enlouquecida que a gente vive hoje”, contou.
Uma escola de gerações
O vínculo tão estreito da Escola Municipal Bahia com a Maré também se reflete no quadro de funcionários, na figura de moradores e ex-moradores que hoje trabalham na escola e que têm orgulho de poder retribuir seu carinho pela favela através da educação. É o caso do Gilson Professor, como é conhecido o professor de matemática na Escola Municipal Bahia e de física no Colégio Estadual Bahia. Mais novo de sete irmãos, ele relata que todos, além dos primos e outros familiares, estudaram na Bahia.
Para ele, ser morador e dar aula na escola tem influência positiva na sua relação com os estudantes: “Conheço boa parte dos alunos, me identifico com a maioria deles. Essa proximidade com os alunos ajuda bastante. Eu vejo que eles têm um pouco mais de respeito por eu ser morador. Procuro sempre criar vínculos, falando da comunidade, falando que eu estudei aqui, falando da importância de estudar, e mostrar que alguém que é da comunidade também pode chegar na faculdade, se formar e virar um profissional de qualidade. Isso é importante.”
O olhar para o futuro
O diretor da escola, Flavio Aragão, vê como grandes os desafios para o futuro. Para ele, atender às demandas dos alunos de hoje exige que a escola acompanhe as transformações da sociedade. O modelo em que estudar significava permanecer em sala copiando o quadro e aprendendo apenas o conteúdo do livro didático, diz, já não responde às novas gerações.
Por isso, Flavio defende que alcançar metas como as do Ideb e da Prova Rio não pode se resumir à transmissão de conteúdo. É preciso, segundo ele, buscar outros caminhos de aprendizagem, aproveitar as potencialidades dos professores e do GET, aproximar as famílias e reforçar a relação entre a escola e a comunidade. Para que esse esforço funcione, acrescenta, é fundamental que os próprios estudantes participem.
“Eu acho que é isso, colocar os pais dentro da escola, mostrar que a escola pertence a essa comunidade, que ela é esse degrau para muitos crescerem aqui dentro e fora, é a maneira que a gente tá tentando trabalhar. E sozinho não consegue. Se o aluno não abraçar a ideia, a gente não consegue. Então, acho importante a gente trazê-los para esse tipo de aprendizagem, para conseguirmos um resultado positivo.”
Em meio aos problemas que atravessam a rede municipal de educação, algumas das experiências construídas dentro da Escola Bahia mostram justamente essa tentativa de fazer dos estudantes parte ativa do processo de aprendizagem e da própria vida escolar.
É o exemplo do Caio, aluno do 8º ano e presidente do grêmio estudantil. Engajado nos projetos da escola e incentivado, principalmente, pelas professoras da sala de leitura, Renata e Sandra, ele destaca a importância de se promover oportunidades aos estudantes no espaço escolar: “Aqui na escola, na sala de leitura e em outros espaços, o aluno pode conversar com as professoras e fazer projetos, dar ideias. Esse protagonismo me ajudou na forma de sentir empatia. Eu gosto de ajudar, sempre me coloquei no lugar das pessoas”, conta Caio.