Conheça a história das águas que já serviram como fonte de alimento e lazer para famílias da Maré, mas se converteram em depósito de esgoto. Promessa de obra renova esperança por renovação do Rio Ramos
Por Ana Paula Carvalho
Edição #169 – Jornal Impresso do Maré de Notícias
Quem passa pelo Parque Rubens Vaz hoje talvez não imagine que o local onde corre um valão com mau cheiro já integrou um conjunto de canais que, até poucas décadas atrás, desempenhava papel fundamental na vida dos moradores do conjunto de favelas da Maré. Suas águas serviam como fonte de lazer e sustento para diversas famílias da região, especialmente por meio da atividade pesqueira.
Com o aumento de intervenções, somado ao avanço da ocupação urbana desacompanhada de infraestrutura adequada de saneamento, esse cenário começou a mudar. Ao longo dos anos, a degradação da sub-bacia do Rio Ramos, que nasce no bairro de Ramos e tem cerca de 1,4 quilômetro de extensão, transformou o antigo curso d’água em um canal que recebe esgoto e conduz os resíduos diários gerados no território em direção à Baía de Guanabara.
Após anos de mobilização coletiva, a Maré está prestes a receber uma intervenção neste espaço que promete responder a uma demanda histórica do território. Trata-se da obra de recuperação do Rio Ramos. Conduzida pela Águas do Rio, mesma concessionária responsável pela implantação dos “Tatuzinhos” na região, a iniciativa prevê a restauração do rio, que atualmente recebe milhões de litros de esgoto por dia em suas margens.
Segundo a concessionária, a nova tubulação vai conectar imóveis ao coletor principal, interrompendo o despejo de esgoto diretamente no rio e contribuindo para a recuperação ambiental da área. A expectativa é que, ao final das obras, cerca de 1,3 bilhão de litros de esgoto por mês deixem de ser lançados na Baía de Guanabara e sejam encaminhados à Estação de Tratamento de Esgoto (ETE) Alegria. O volume equivale a 520 piscinas olímpicas.
Racismo ambiental na prática
A ausência de políticas públicas e de serviços de saneamento básico mostra, na prática, como o racismo ambiental atinge favelas e periferias, levando os moradores a criar e adotar suas próprias estratégias de proteção.
Presidente da Associação de Moradores do Parque Rubens Vaz, onde atua há cerca de 33 anos, Vilmar Gomes Crisóstomo, o Magá, foi responsável por iniciar um trabalho de conscientização dos moradores, para que o lixo gerado nas casas fosse descartado corretamente.
“Esse trabalho de conscientização começou há cerca de cinco anos. Na época, a situação era muito complicada. A gente passava por aqui e via moradores jogando sacos de lixo do terceiro andar direto no valão. Eu pensei: ‘Isso precisa acabar’. Hoje você passa por aqui e já não vê mais isso acontecendo”, conta.
Morador do Parque União há 55 anos, Magá lembra um dos episódios mais marcantes, resultados de anos de falta de políticas públicas e de saneamento básico: “Quando vieram aquelas chuvas fortes de verão [em 2017], a água desceu com muita força para cá. O valão transbordou e praticamente todos os moradores que vivem próximos perderam móveis e eletrodomésticos. Muita gente perdeu tudo. Foi uma enchente muito severa”.
Assim como outros moradores que conheceram o Rio Ramos antes da poluição, Magá espera ver o canal recuperado. “Eu costumo dizer que quero me aposentar da associação depois de ver esse sonho realizado. Quero poder pescar novamente nesse rio. Quando eu era mais novo, pescava tainha e bagre aqui. A água era limpa e a gente pescava para comer. Quero poder dedicar meu tempo ao lazer, tomar banho, pescar e aproveitar o rio limpo. Hoje, se alguém entra nessa água, corre risco de adoecer”, desabafa.