12ª operação policial na Maré tem invasões de domicílios, assédio sexual e 22 escolas fechadas
Carlane Viana Gomes (38) saiu de casa hoje por volta das 4h20 da manhã para iniciar seu terceiro dia de trabalho em uma padaria. A mãe de Carlos, de 15 anos, e Benjamin, de 9, que são pessoas autistas, havia comprado há poucos dias o canabidiol utilizado no tratamento dos filhos, especialmente importante para ajudá-los na regulação emocional e comportamental, inclusive em dias de operações policiais.
Ao retornar para casa, Carlane encontrou a porta de entrada arrombada e os cômodos completamente revirados. Sua primeira reação foi verificar a geladeira, onde mantinha armazenado o canabidiol. No momento da invasão, Carlos e Benjamin estavam com uma cuidadora, responsável por acompanhá-los enquanto a mãe trabalhava. Segundo relatos de vizinhas, um agente de segurança que não utilizava câmera corporal teria arrombado e invadido a residência utilizando uma chave mestra.
“Ter o canabidiol de volta eu sei que não vou ter, mas quero uma resposta. Como um órgão público chega e entra na sua casa sem um mandado, com sua porta fechada, sem ninguém em casa. Hoje aconteceu comigo e amanhã pode acontecer com outras pessoas diferentes. Se eu tivesse dentro da minha casa com meus filhos, eu seria assediada”, desabafa a moradora. Carlane, que também convive com depressão e ansiedade, estava visivelmente abalada. “Foi um baque muito grande eu chegar na minha casa e ver minha casa revirada”. A moradora reforça o quanto os danos causados para ela hoje vão muito além do financeiro, e como o psicológico dela e dos filhos também é profundamente afetado.
Apesar de ter sido vítima da violação nesta que foi a 12ª operação do ano na Maré, Carlane conta o quanto as operações são dias traumáticos para ela e os dois filhos. Carlos, o filho mais velho, é uma pessoa autista não oralizada. “Ele tem um medo do blindado, do caveirão que vocês não tem noção de como ele fica. Ele chega a se esconder debaixo da cama quando ouve o barulho”. A mãe das crianças destaca a importância do uso do medicamento, que custou R$ 600, para regulação do cotidiano dos filhos.
Além de Carlos e Benjamin, pelo menos outros nove mil estudantes de mais de 22 unidades escolares do Conjunto de Favelas da Maré ficaram sem aula nesta quarta-feira, na primeira semana de aulas após o recesso escolar do segundo semestre. Os efeitos no processo de aprendizagem desses estudantes ainda não podem ser medidos e vem sendo tema de incidência da Redes da Maré e outros movimentos sociais na defesa da garantia dos 200 dias letivos.
Carlane foi acolhida pela equipe multidisciplinar que integra o plantão de acolhimento em operações policiais do eixo Direito à Segurança Pública e Acesso à Justiça da Redes da Maré nesta quarta. A equipe atua recebendo violações de direitos de moradores durante o contexto de operações policiais, disponibilizando suporte sócio jurídico e psicológico, quando necessário.
Além dos domicílios invadidos, a equipe do eixo Direito à Segurança Pública e Acesso à Justiça que acompanha as operações recebeu denúncias de suposto assédio sexual por parte dos agentes da segurança. Duas unidades de saúde tiveram funcionamento interrompido nesta quarta-feira.
Na operação de hoje, mais de 200 policiais militares do Batalhão de Operações Policiais Especiais (BOPE), do Batalhão de Polícia de Choque (BPChq), do Batalhão de Ações com Cães (BAC), do Grupamento Aeromóvel (GAM), do Batalhão Tático de Motociclistas (BTM) e do Batalhão de Policiamento em Vias Expressas (BPVE) participaram da ação, que começou antes das 5h da manhã.

Fato não é isolado
Na operação desta quarta-feira, além da casa de Carlane, outros três domicílios foram invadidos por agentes de segurança. Dados do projeto De Olho na Maré, que completa dez anos de monitoramento das dinâmicas da violência armada no território, registraram 318 invasões de domicílios e estabelecimentos comerciais entre 2016 e 2025, ocorridas durante 231 operações policiais. Os dados completos estão reunidos no Boletim Direito à Segurança Pública lançado este ano.
Denúncia de caso na Maré
Em abril deste ano, O Ministério Público do Estado do Rio de Janeiro (MPRJ) denunciou dez policiais militares do Batalhão de Operações Policiais Especiais (BOPE) por invasão de domicílio, descumprimento de missão e desobediência durante uma operação realizada em 10 de janeiro, na Nova Holanda e no Parque União. Os agentes entraram nos domicílios sem autorização judicial ou moradores presentes, utilizando, em alguns casos chaves do tipo mestras, como aconteceu hoje na casa de Carlane.
Na ocasião, foi comprovado que os policiais tentaram impedir o registro da ação pelas câmeras corporais, resultando em gravações de “tela preta” ou desvio de ângulo para ocultar a conduta. A Auditoria da Justiça Militar aceitou a denúncia e os agentes viraram réus.
Por que moradores de favelas aprovam ou reprovam operações policiais com confrontos armados?
O caso de Carlane revela aspectos sobre as vivências de moradores de favelas durante operações policiais de que foram investigados em profundidade na pesquisa ‘Por que moradores de favelas aprovam ou reprovam operações policiais com confrontos armados?’, disponível no site da Redes da Maré.
A pesquisa foi realizada em quatro grandes conjuntos de favelas da cidade do Rio de Janeiro: Complexo do Alemão, Complexo da Penha, Maré e Rocinha, com mais de quatro mil moradores dessas regiões. Entre os principais resultados está o dado de que 92% dessa população que vive nessas favelas discordam do modelo atual das operações policiais. As constantes violações de direitos e a falta de sensação de segurança dentro dos próprios domicílios aparecem entre os principais fatores que influenciam essa percepção.
Mais um dia se encerra na Maré com a pergunta: o quanto o sentimento de indignação, revolta, medo e violação precisa estar presente no cotidiano dos moradores de favelas?