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Oito anos de sonhos interrompidos e barreiras de justiça

Bruna Silva transformou luto e dor em luta por justiça

Marcus Vinícius, de 14 anos, foi morto durante uma operação policial em junho de 2018; o jovem é uma das 167 vítimas da violência de Estado na Maré

Por Thayssa Rios e Jéssica Pires

Desde junho de 2018 até este ano, o Flamengo vive uma das suas eras mais vitoriosas apelidada de “Era de Ouro”, em que o time conseguiu se consolidar como uma das maiores potências do continente – conquistando 24 títulos continentais, nacionais, regionais e estaduais. Entre as vitórias, três da Copa Libertadores da América, a tão sonhada taça da “liberta”, que só tinha sido conquistada em 1981, voltou para o clube em 2019, 2022 e 2025. Para um jovem rubro-negro nascido no início dos anos dois mil, o único entre uma família de vascaínos, viver a experiência de ver o time do coração conquistar essa sequência de títulos poderia ter sido a realização de um sonho. Um dos incontáveis sonhos que foram retirados do Marcus Vinícius da Silva.

Marcus Vinicius da Silva

Aos 14 anos, ainda no início da adolescência, Marcus Vinícius já era um jovem decidido. De personalidade forte, era ele quem abria mão de brincar na rua para ensinar as lições de casa para a irmã caçula, já que os pais contavam com a ajuda do filho nesta tarefa. Durante as conversas, ele prometia para a sua mãe – quem ele dizia que era o seu maior “fechamento”, forma carinhosa de reforçar a importância da amizade entre os dois – “que um dia ela saberia o grande filho que ela tinha”.

“O Marcus Vinícius tinha a rotina dele. O menino tinha cabeça, o meu filho tinha juízo. Ele falava pra mim ‘mãe, um dia a senhora vai saber o grande filho que a senhora tem’. Toda vez que eu repreendia ele, ele falava ‘mãe, a senhora está de bobeira, a senhora ainda vai saber o filho que a senhora tem’. Hoje, não tenho mais o meu filho aqui, mas eu realmente soube o filho que eu tinha”, lembra Bruna da Silva, mãe que teve seu filho assassinado, no dia 20 de junho de 2018.

Marcus foi baleado durante uma operação policial no caminho de volta da escola para casa na Vila do Pinheiro, uma das favelas que integram o conjunto de 15 favelas da Maré, onde vivem mais de 140 mil pessoas.

Marcus Vinícius da Silva. Foto: arquivo pessoal da família

8 anos sem justiça e sem reparação

Naquele dia 20 de junho, quando o adolescente foi atingido na lombar por um tiro de fuzil, quem comandava a operação era a Delegacia de Combate às Drogas (DECOD), com apoio da Coordenadoria de Recursos Especiais (CORE) e outras delegacias. Marcus Vinícius, alvejado na rua por um tiro vindo de um blindado, não foi a única vítima da operação. Outros cinco jovens foram mortos dentro de uma casa na Maré com indícios de execução, mas essas mortes não tomaram a mesma projeção.

Até hoje, 8 anos depois, o caso ainda está em fase de inquérito – processo legal que apura a autoria e a materialidade de um crime antes do caso ir para a Justiça. Nesta fase ainda são realizados depoimentos e recolhimento de provas.

A morte de Marcus Vinícius aconteceu dentro de um contexto de operação policial com uso de helicóptero. No mesmo ano, em 2018, houve uma intervenção federal na Segurança Pública do Estado do Rio de Janeiro, com a atuação da Força Nacional apoiando as ações nas favelas.

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“Mãe, a polícia não me viu com a camisa da escola?”

Após ser atingido, ele chegou a ser levado até a UPA da Vila do João por um vizinho, em seguida transferido para o Hospital Estadual Getúlio Vargas (Penha), mas durante a cirurgia ele não resistiu aos ferimentos. Bruna contou diversas vezes que a última pergunta que o filho fez foi “mãe, a polícia não me viu com a camisa da escola?”.

No dia seguinte da morte, 21 de junho, a Delegacia de Homicídios (DH) realizou uma perícia no local do crime. Uma das poucas etapas de investigação realizadas até hoje diante de um caso que enfrenta diversas barreiras judiciais. A morte de Marcus Vinícius e a imagem de sua mãe segurando o uniforme escolar sujo de sangue ganharam os noticiários na época.

“Diferente da maioria dos casos de mortes em território, houve uma perícia de local, o que poderia trazer elementos para se descobrir a autoria do crime. O ideal é uma perícia de local feita com critério, de forma qualificada, sendo possível descobrir vestígios de sangue e restos de projéteis, por exemplo. Só que a perícia do Marcus foi feita num lapso temporal relativamente grande, só no dia seguinte da morte”, explica a advogada Marcela Cardoso, da Redes da Maré, que acompanha o caso.

“Depois de 8 anos, soubemos que a perícia foi inconclusiva porque ela dá que o projétil pode ter partido de duas direções diferentes. O que hoje a gente vem entendendo é que, a partir do confronto entre a perícia de local e os depoimentos dos policiais envolvidos na ação, se tem uma incongruência”, conclui Marcela.

A investigação, de 2018 a 2021 conduzida tanto pela DH quanto pelo Grupo de Atuação Especializada em Segurança Pública (GAESP), não avançou. Atualmente, segue sendo acompanhada pelo Ministério Público Federal (MPF) que, em 2023, chegou a solicitar diligências ao Ministério Público do Rio de Janeiro (MPRJ), como os depoimentos do piloto e do copiloto do helicóptero da operação, mas os agentes que estavam na aeronave alegam que não se lembram de detalhes da operação.

“É o caso de um jovem negro, de 14 anos, no translado voltando da escola buscando melhoria de vida e ascensão social através dos estudos. Ele foi impedido de se tornar um adulto, de conquistar, de ter sonhos realizados. Impedido pela própria polícia que o judiciário legitima e o Ministério Público legitima. Então, o tiro que atingiu o Marcus, ele não vem só da mão da polícia. É o Ministério Público que não controla e o judiciário que aceita um pedido de arquivamento do caso quando ele tem elementos dizendo que não é para ser arquivado”, afirma Marcela.

Em 2025, para subsidiar a decisão pela denúncia ou pelo arquivamento, o promotor natural do caso solicitou um laudo da Divisão de Evidências Digitais e Tecnologia (DEDIT), vinculada ao MPRJ, mas a partir da leitura dos laudos médicos e da perícia do local, alegaram não ser possível produzir uma análise técnica devido às falhas da investigação – sem diligências e sem os vestígios e evidências que poderiam auxiliar.

Violações sistemáticas

A morte do Marcus tem relevância nacional e global, uma vez que o caso importa em um descumprimento sistemático de normas nacionais e que compõem um sistema internacional de direitos humanos que envolvem o direito à dignidade da pessoa humana, o direito à vida. Envolve, inclusive, a necessidade da investigação independente e o controle da atividade das forças de segurança estatais. Ele mostra a vulnerabilidade que o Estado acaba gerando para a população negra, pobre, periférica e moradora de território de favela”, destaca Gabriel de Sampaio, diretor de litigância e incidência da organização não governamental Conectas Direitos Humanos.

Sem respostas

Ainda não há uma resposta judicial para a Bruna sobre a morte do seu filho. Oitivas com novas testemunhas podem ajudar o caso a não ser arquivado, mas ainda é uma esperança vaga e incerta de se descobrir e responder quem matou Marcus Vinícius. E o caso dele não é único sem respostas.

“São diversos casos que envolvem violência policial e do Estado com uma absoluta falta de respostas. São problemas básicos de investigação. No Rio de Janeiro, as perícias não são independentes mesmo que os protocolos nacionais e internacionais que delimitam as boas investigações mostrem que o cenário de ausência de controle e de cobrança dos órgãos do poder judiciário podem gerar resultado. Isso gera barreiras para que as famílias das vítimas não tenham o direito à verdade, à memória e a reparação pela morte de seus entes queridos”, comenta Gabriel. 

Autonomia das perícias: um caminho para o acesso à justiça

Segundo a Associação Brasileira de Criminalística (ABC) e a Defensoria Pública, por anos o Rio vive esse atraso de não ter uma perícia criminal independente – na contramão de uma tendência nacional, atrás de outros 19 estados que já têm perícias independentes. Estudos do Instituto Vladimir Herzog e a Fundação Friedrich Ebert, publicados em ofício da Defensoria protocolado ao TJRJ em abril deste ano, mostram que apenas 16% dos homicídios são esclarecidos no estado do Rio com a menor taxa de elucidação de crimes desta natureza do país inteiro. A Maré, que há anos é monitorada pela Redes, é o retrato desse atraso.

“Há uma intencionalidade em não se investigar, ainda mais quando a investigação é feita pela Polícia Civil porque a força policial que pratica o homicídio é a mesma força que vai fazer a investigação. No fim das contas, são corpos que de certa forma são lidos socialmente dentro de uma lógica de sujeição criminal. São pessoas que não são lidas enquanto cidadãos, são lidas como criminosos. Inicialmente o Marcus foi veiculado como pertencente a grupos criminosos, uma narrativa que ajuda polícia de blindar a ação ilegal dela, mas o movimento contrário foi muito forte do território de desconstruir essa mentira. E só quando se desconstruiu a imagem do bandido para a do estudante que a perícia foi feita. Ainda assim, essa perícia é uma perícia que foi realizada pela polícia civil que tem todos os elementos de controle sobre a narrativa que se constrói a partir do inquérito policial porque é ela que toca o inquérito. É a polícia que decide o que inclui, como inclui e se inclui no inquérito”, destaca a advogada Marcela Cardoso.

Na última década, o projeto De Olho na Maré, da Redes da Maré, contabilizou 231 operações policiais, 167 mortes e 1.538 violências e violações de direitos de moradores, como ameaças, tortura e cárcere privado. Os dados foram publicados em março deste ano na 9ª edição do “Boletim Direito à Segurança Pública na Maré – dados 2025“, que traz a série histórica de monitoramento entre 2016 e 2025. Apenas uma denúncia foi realizada pelo MPRJ.

Eu nunca pensei de pegar o corpo do meu filho com um furo de bala no corpo. O Estado mata com a certeza da impunidade. Eles não vão me pedir desculpa. A reparação para mim é que o nosso movimento de mães com filhos vitimados e tantos outros movimentos, não se multipliquem. Como reparação nós queremos é que não haja repetição dessas mortes”, diz Bruna.

Bruna da Silva em ato contra a violência policial no vão livre do Masp, em São Paulo, em julho de 2018 | Foto: Kevin David /A7 Press / Estadão Conteúdo

Por que moradores de favelas aprovam ou reprovam operações policiais com confronto armado?

A violência armada dos policiais não se sustenta como um método de trabalho eficiente, já que não traz redução da violência e, muitas vezes, viola os direitos dos moradores. Segundo a pesquisa “Por que moradores de favelas aprovam ou reprovam operações policiais com confronto armado?”, realizada nas favelas do Complexo do Alemão, Complexo da Penha, Conjunto de Favelas da Maré e Rocinha, a percepção sobre as operações policiais é majoritariamente negativa.

Os dados mostram que 73% dos moradores discordam das ações realizadas nesses territórios, enquanto 91% afirmam que há excessos e ilegalidades por parte da polícia, percepção compartilhada até mesmo por 85% daqueles que apoiam as operações. A rejeição ao modelo atual também é ampla: 92% desaprovam a forma como essas ações são conduzidas, e 95% consideram que elas não contribuem para aumentar a segurança das famílias.

O estudo lança luz sobre a vivência e a opinião daqueles que são os principais atingidos pelo modelo atual de operação policial centrado no enfrentamento bélico, entendendo suas percepções e sentimentos, pontos de crítica e desejos de mudanças para que não se percam mais vidas como a do estudante Marcus Vinicius.

Futuros Exterminados

Entre essas 167 mortes, houveram quatro crianças e adolescentes feridos e outras quatro mortas, incluindo Marcus Vinícius. Desde 2016, pelo menos 2113 crianças e adolescentes foram vítimas de armas de fogo nas regiões metropolitanas de Salvador, Belém, Recife e Rio de Janeiro, de acordo com dados do monitoramento colaborativo realizado pelo Instituto Fogo Cruzado. Só no Rio de Janeiro 779 crianças e adolescentes foram baleados na região metropolitana do Rio de Janeiro durante o período. Marcus Vinícius é uma delas.

“Depois que ele morreu, eu fiquei um bom tempo andando com o telefone dele pela favela. Onde eu passava, cada cantinho que ele me avisava que estaria quando eu deixava ele ir pra rua, ia apitando e conectando as redes de wi-fi dos outros. E eu ia lembrando dele me avisando de onde estaria e o celular realmente ativando o wi-fi dos outros, eu ia rindo e pensando ‘gente, esse garoto é danado, tinha a internet de quase todo mundo na rua’. Ele ainda me faz feliz, ele ainda me coloca para rir. Meu filho é minha luz, ele é o meu brilho. Eu sou a mãe do Marcus e nada vai apagar o que eu sinto pelo meu filho. Enquanto eu tiver vida, tiver fôlego, eu vou continuar na rua, eu vou continuar gritando por ele”, enfatiza Bruna.

Levante Maré por Justiça

Neste dia 20 de junho, dia em que a morte de Marcus completa 8 anos, Bruna Silva, outras mães vítimas da violência do Estado, integrantes de movimentos sociais e moradores de diferentes territórios realizam uma passeata em memória das 167 vidas interrompidas em operações policiais na Maré. O “Levante Maré por Justiça”, reafirmará a luta pela verdade, justiça e reparação por Marcus Vinícius e todas essas outras vítimas.

Horário: 15h

Ponto de encontro: Clínica da Família Adib Jatene, Avenida Bento Ribeiro Dantas – S/N, na Vila dos Pinheiros.

Trajeto: Saída da Clínica da Família Adib Jatene, caminhada pela rua B1 até o espaço cultural Pontilhão (Rua Praia de Inhaúma – 911, embaixo da Linha Amarela).

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