Pesquisa realizada com 4.080 pessoas aponta que a rejeição está relacionada a violações de direitos, medo e insegurança dentro de casa
Por: Jéssica Pires e Thayssa Rios
Edição #170 – Jornal Impresso do Maré de Notícias
Poderia ter sido apenas mais um dia da primeira semana no novo trabalho de Carlane Viana Gomes, de 38 anos, que saiu de casa por volta das 4h20 para o terceiro dia trabalhando em uma padaria. Antes de sair, deixou os dois filhos — que são pessoas autistas — com uma cuidadora. Durante o expediente, ligou para saber como estavam e foi informada de que a polícia estava na rua revistando casas. Ao voltar, encontrou as fechaduras das portas arrombadas. Vizinhos contaram que policiais entraram e reviraram a casa. Foi então que Carlane olhou a geladeira, onde guardava o canabidiol comprado poucos dias antes para o tratamento dos filhos, e percebeu que o medicamento havia sumido. O episódio aconteceu em 5 de agosto, na 12ª operação policial deste ano na Maré. Até o fim daquele mês, já haviam sido contabilizadas 13 operações.
“Ter o canabidiol de volta eu sei que não vou ter, mas quero uma resposta. Como um representante do poder público chega e entra na sua casa sem um mandado, com sua porta fechada, sem ninguém em casa? Hoje aconteceu comigo e amanhã pode acontecer com outras pessoas”, desabafa a moradora.
O medicamento, que ajuda na regulação emocional e comportamental dos filhos, inclusive em dias de operações policiais, custou R$ 600.
Lembrando que a entrada de policiais em uma residência precisa seguir regras estritas, seja na favela ou no resto da cidade. A Constituição Federal estabelece que ninguém pode entrar em uma casa sem o consentimento do morador, exceto em caso de flagrante delito, desastre, necessidade de prestar socorro ou, durante o dia, por determinação judicial. Quando não há mandado, o Supremo Tribunal Federal (STF) determina ainda que uma entrada forçada baseada na ocorrência de um flagrante precisa ser sustentada por razões concretas, que possam ser justificadas posteriormente pelos agentes.
Segundo dados do De Olho na Maré, projeto da Redes da Maré que monitora situações de violência nas 15 favelas do território, das 13 operações policiais até o fim de agosto, 11 foram planejadas e duas foram emergenciais. Em todas foi registrado algum tipo de violação de direitos: cárcere privado (8 casos), dano ao patrimônio, à propriedade privada ou pertences (18), invasão de domicílio ou estabelecimento comercial (16), roubo de pertences (6), violência psicológica (9) e coação (9).
Carlane, que também convive com depressão e ansiedade, estava visivelmente abalada. “Foi um baque muito grande eu chegar e ver minha casa revirada”, afirma. O caso da família revela aspectos das vivências de moradores de favelas durante operações policiais investigados na pesquisa “Por que moradores de favelas aprovam ou reprovam operações policiais com confrontos armados?”, disponível no QR Code.
Realizada no início deste ano com 4.080 moradores do Complexo do Alemão, Complexo da Penha, Maré e Rocinha, a pesquisa mostra que 92% da população dessas favelas discorda do modelo atual das operações policiais. Violações de direitos e a falta de sensação de segurança dentro dos próprios domicílios aparecem entre os fatores que influenciam essa percepção.
Na Maré, foram ouvidos 1.020 moradores. Destes, 77% não concordam com a atuação baseada no enfrentamento bélico e na violência. Entre jovens de 18 a 29 anos, o índice chega a 82%. A discordância também alcança 74% entre pessoas que se identificam como pardas e 86% entre as pretas.
Quando acontecem operações policiais, não é só quem é atingido por arma de fogo que sai ferido. Durante a sétima operação deste ano, em 7 de abril, a atuação policial começou às 5h e durou até as 18h30. Naquele dia, dois moradores de 21 anos foram baleados e Renan dos Santos Lima, de 29 anos, foi morto em uma esquina da Rua Sargento Silva Nunes, na Nova Holanda.
“Na hora do desespero, eu corri. Ouvia ele gritando ‘me balearam, me balearam’. E aí ele caiu no chão, foi quando uma colega minha voltou e começou a arrastar ele para dentro da nossa rua”, lembra uma jovem de 21 anos, que presenciou pela primeira vez duas pessoas serem baleadas. Uma das vítimas é seu amigo. “O outro baleado conseguiu correr até a porta da minha casa. Eu comecei a amarrar a blusa no ferimento, até que os amigos dele o colocaram nas costas para levar para o hospital.”
Segundo a jovem, o grupo estava sentado na esquina porque acreditava que a operação, iniciada por volta das 5h, já havia acabado no fim da tarde. Um dos rapazes foi baleado na barriga e o outro na perna. “Foi um desespero. Eu chorei porque também foi um livramento pra mim. Eu poderia ter tomado um tiro nas costas, e eu não ia aguentar, né?”, afirma a jovem.
De acordo com a pesquisa realizada pela Redes da Maré e conduzida em parceria com Frente Penha, Instituto Raízes em Movimento, Instituto Papo Reto, Fala Roça e A Rocinha Resiste, 93% dos moradores da Maré afirmam que eles próprios ou alguém da família já vivenciou alguma operação no território. Deste grupo, 60% afirmam sentir bastante medo da atuação da polícia, 22% um pouco de medo e 18% dizem não sentir medo.
Os jovens feridos foram socorridos pelos próprios moradores, que os levaram de moto até uma kombi, que seguiu com os dois para o hospital mais próximo da Maré.
Os dados do De Olho na Maré mostram que, das 13 operações realizadas neste ano nas favelas da Maré, oito delas atingiram a região do Morro do Timbau e seis delas a Baixa do Sapateiro e na Nova Maré. O estudo, ao separar a opinião dos moradores por quatro áreas*, mostra que apenas em Roquete Pinto e Praia de Ramos, onde não há registro de operação policial, 58% da população concorda com o atual modelo. Entre moradores das áreas que concentram a maioria das ações dos agentes, a discordância chega a 82%.
Os impactos no cotidiano e as violações de direitos deixam marcas nas casas e na memória dos moradores. Segundo o De Olho na Maré, neste ano já são 10 dias letivos sem aula — uma média de 30 escolas fechadas e mais de 11 mil alunos sem aula por operação policial. Nas unidades de saúde, foram 11 dias de atendimentos totalmente interrompidos, sem contabilizar moradores impedidos de sair de casa para consultas em outras regiões da cidade.
Em todas as operações, a equipe da Redes da Maré observa se há descumprimentos da ADPF 635 (ADPF das Favelas). Em 11 das 13 realizadas neste ano, ao menos uma das medidas foi descumprida, como uso insuficiente de câmeras corporais pelos agentes; falta de perícia e preservação das áreas onde aconteceram violações e mortes; e ambulâncias presentes, mas não utilizadas para socorro.
As informações coletadas com moradores pela equipe da Redes da Maré durante as operações são encaminhadas ao monitoramento do Grupo de Trabalho da ADPF 635, instituído em abril de 2025 para a preservação da decisão do STF. O objetivo é reunir indícios e possíveis provas que possam, na ausência de perícia nos territórios do Conjunto de Favelas da Maré, servir de base para investigações policiais, ações criminais e o controle externo da atividade policial.
Em dias de operações policiais a Redes da Maré realiza um plantão de acolhimento presencial nos prédios da organização localizados em diversos pontos no território e também recebe demandas via WhatsApp e o Ministério Público do Estado do Rio de Janeiro (MPRJ) mantém um plantão especial para atendimento à população.
Plantão do Ministério Público do Estado do Rio de Janeiro (MPRJ): O serviço gratuito pode ser acessado pelo telefone e WhatsApp: (21) 2215-7003 ou pelo e-mail: gt-adpf635@mprj.mp.br. Já o serviço da Redes da Maré pode ser acessado pelo telefone e WhatsApp: (21) 99924-6462.
*Áreas consideradas no acompanhamento do projeto De Olho na Maré: Área 1: Conjunto Esperança, Conjunto Pinheiros, Vila do João, Vila dos Pinheiros e Salsa e Merengue. Área 2: Conjunto Bento Ribeiro Dantas, Morro do Timbau, Baixa do Sapateiro e Nova Maré. Área 3: Parque União, Rubens Vaz, Parque Maré e Nova Holanda. Área 4: Roquete Pinto e Praia de Ramos.
*Colaboraram os pesquisadores do De Olho na Maré: Aristênio Gomes, Lucilda Cavalcante e Luiz Carlos Junior.