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VIOLÊNCIA ARMADA DEIXA BURACOS NA FORMAÇÃO DOS JOVENS DA MARÉ

Operações policiais interromperam 173 dias de aulas no maior conjunto de favelas do Rio
desde 2016; nova resolução estabelece medidas para garantir o direito à educação em territórios afetados

Por: Gleusa Santos

173 dias de aula perdidos em uma década. O que esse número significa para a formação dos jovens moradores das favelas da Maré? 

Como construir uma trajetória escolar inteira quando é preciso estar sempre correndo atrás do prejuízo? 

O impacto de uma escola fechada por causa de uma operação policial é muito mais complexo do que um dia a menos de aula. Todo o processo de ensino é afetado: prazos são interrompidos, vínculos são fragilizados e a escola deixa, ainda que temporariamente, de ocupar seu lugar de aprendizado, convivência, segurança e familiaridade. 

Provas podem ser adiadas, atividades se acumulam, conteúdos deixam de ser trabalhados e famílias precisam reorganizar a rotina. Quando as aulas retornam, recuperar o que ficou para trás é outro desafio. E, quando essas interrupções se repetem ao longo dos anos, o prejuízo também se acumula. 

Para Felipe, 15 anos, morador da Maré, as interrupções das aulas podem dificultar ainda mais a preparação para as provas. “Quando a escola fecha por causa das operações, isso me afeta diretamente, porque às vezes eu preciso muito da escola, da ajuda e da explicação dos professores. Quando fico em casa, tenho que estudar por mim mesmo e dar o meu jeito”, lamenta. 

Elizabeth, 45 anos, mãe de Felipe e dona de uma loja na Maré, muitas vezes não consegue trabalhar em dias de operação. Quando os conflitos armados acontecem enquanto o filho já está na escola, ela precisa reorganizar a rotina para buscá-lo e, em algumas situações, contar com a ajuda da avó, além de arcar com gastos extras com alimentação. “Mexe com o nosso dia, nossa rotina e com o nosso psicológico. Eu tenho que realmente mudar todo o meu dia”, conta. 

Repor um dia no calendário não significa, necessariamente, recuperar tudo o que foi perdido. Uma professora da rede municipal que trabalha na Maré e prefere não ser identificada explica que os estudantes podem receber atividades para fazer em casa durante as interrupções, mas elas não substituem o que estava previsto no planejamento pedagógico. 

Com o tempo perdido, o professor precisa reorganizar as aulas e, quando novas interrupções acontecem, o atraso se acumula. “O prejuízo não se resume ao conteúdo que deixou de ser trabalhado. Também ficam pelo caminho atividades, explicações e habilidades que deveriam ser desenvolvidas naquele período. E, quando os estudantes retornam, existe ainda outro desafio: lidar com o que aconteceu durante a operação”, explica a professora. 

O retorno à escola também não significa uma volta imediata à rotina. Depois de uma operação, os estudantes podem chegar agitados ou assustados com o que vivenciaram. O professor precisa acolher a turma e, ao mesmo tempo, retomar o conteúdo. Os profissionais da educação também sofrem os efeitos dessas interrupções. Segundo a professora, falta apoio para a saúde mental dos trabalhadores, e os afastamentos também prejudicam a continuidade das aulas. 

Pesquisas recentes ajudam a dimensionar esses impactos para além dos dias perdidos no calendário. O estudo Educação Sob Cerco, realizado pelo GENI/UFF, Instituto Fogo Cruzado, CERES-IESP e Unicef, identificou diferenças de desempenho escolar equivalentes a até seis meses de aprendizagem entre estudantes de áreas dominadas por grupos armados e aqueles que estudam em outras regiões do Grande Rio. Segundo Daniel Hirata, professor da UFF e coordenador do GENI, mesmo quando são consideradas outras variáveis que influenciam o desempenho escolar, crianças que estudam nesses territórios apresentam um déficit na aprendizagem ao longo do ano letivo. 

Na Maré, os efeitos da violência armada também aparecem em outras dimensões da formação. Em artigo publicado em 2026, os pesquisadores Luiz Eduardo Soares e Miriam Krenzinger, da UFRJ, destacam que estudos produzidos no próprio território relacionam a exposição à violência armada a impactos no bem-estar, na circulação, nos vínculos e na sociabilidade. A interrupção das aulas, portanto, não afeta apenas o conteúdo que deixa de ser trabalhado: também rompe rotinas e espaços de convivência que fazem parte da experiência escolar e do desenvolvimento de crianças e jovens. 

O que os 173 dias sem aula mostram 

Desde 2016, o monitoramento realizado pela Redes da Maré, através do projeto De Olho na Maré, do Eixo Direito à Segurança Pública e Acesso à Justiça, registra as interrupções das aulas provocadas por operações policiais e seus efeitos no território. Entre 2016 e o primeiro semestre de 2026, foram 173 dias de escolas fechadas, o equivalente a 86,5% de um ano letivo de 200 dias. 

Somente no primeiro semestre de 2026, 13 operações policiais provocaram dez dias sem aula. Em outras duas ocasiões, as operações começaram com as aulas em andamento e também afetaram o funcionamento das escolas. 

Para Andréia Martins, diretora da Redes da Maré, o conhecimento produzido pelo território foi importante para dar visibilidade a um problema que, por muito tempo, apareceu apenas como uma sequência de situações pontuais. “A experiência da Maré mostrou, com dados e com a vivência de quem está na escola, que não estamos falando de casos isolados. Existe um problema que se repete e que precisa ser enfrentado como uma questão de política pública.” 

O que muda com a nova resolução? 

Em julho de 2026, o Conselho Nacional de Educação publicou a Resolução CNE/CEB nº 3/2026, que estabelece diretrizes para manter a continuidade da educação em situações que interrompam o calendário escolar, incluindo episódios de violência armada. 

Na prática, a norma determina que estados e municípios criem protocolos para esses momentos, organizem a comunicação com escolas e famílias e planejem formas de manter as atividades e recuperar as aprendizagens. 

Também orienta que, quando houver condições de segurança, o fechamento da escola não seja a única resposta e que as redes avaliem alternativas para reorganizar o funcionamento e a retomada das aulas. 

A resolução, porém, estabelece diretrizes nacionais. A aplicação dessas medidas depende das redes de ensino. Para as escolas da Maré, ainda é preciso saber quais protocolos serão adotados, como funcionarão em dias de operação e quais estratégias serão usadas para recuperar as perdas acumuladas. 

Segundo Andréia Martins, essa recuperação não pode se limitar à reposição de dias. “Os 200 dias são um piso de garantia do direito à educação, mas não podem ser tratados como uma simples conta de calendário. Quando a violência interrompe repetidamente a escola, o que está em jogo é uma trajetória de aprendizagem e é essa trajetória que precisa ser reparada.” 

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