Entenda a obra que deve enfrentar problemas históricos de água e esgoto na Maré

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Após décadas convivendo com vazamentos, alagamentos e interrupções no serviço, moradores acompanham o início de uma das maiores intervenções de infraestrutura da história da Maré

Por Flavia Veloso

Edição #169 – Jornal Impresso do Maré de Notícias

Após décadas de reivindicações de moradores e sucessivos adiamentos, a Maré começou a receber, em 2026, uma das maiores obras de saneamento de sua história. O projeto prevê a construção de um tronco coletor de 4 quilômetros, que levará o esgoto do território até a Estação de Tratamento de Esgoto (ETE) Alegria, no Caju, além da instalação de 18 quilômetros de tubulações secundárias para conectar casas e estabelecimentos à rede.

A chegada da obra representa um avanço aguardado há gerações por moradores do conjunto de favelas. Além de ampliar o acesso ao esgotamento sanitário e à água tratada, a intervenção busca enfrentar problemas que marcaram a rotina da população por décadas, como vazamentos, alagamentos, retorno de esgoto para dentro das casas e riscos à saúde. Segundo a concessionária Águas do Rio, a intervenção vai contribuir para reduzir o volume de esgoto despejado na Baía de Guanabara. Atualmente, segundo a empresa, nenhum litro do esgoto gerado na Maré é tratado. O material acaba lançado em córregos, rios e canais que deságuam na Baía de Guanabara.

Rosana de Souza tem 63 anos de Maré, nasceu e cresceu no conjunto de favelas. Moradora da Nova Holanda, ela sente na pele os problemas causados pela deficiência no saneamento básico. “Quem é da antiga aqui só vivia com o esgoto cheio. Era uma coisa que causava muito problema, doença nas crianças. Antigamente, as ruas enchiam muito, ficava aquele cheiro de fossa, era uma coisa muito triste. Depois foi evoluindo. Teve uma melhora, e piorou com a população que aumentou aqui dentro. Agora, de uns tempos pra cá, quando chove forte, eu vou sair pra trabalhar 4 horas da manhã, os pés dentro da água, tudo esgoto”, relata.

A concretização do projeto encerra uma longa disputa sobre responsabilidades entre poder público e concessionárias. Ao longo dos anos, moradores denunciaram a precariedade da infraestrutura, cobraram soluções e mantiveram uma mobilização contínua pelo direito ao saneamento básico, até que a obra finalmente saiu do papel. A intervenção integra o Programa de Despoluição da Baía de Guanabara (PDBG), lançado em 1994, ou seja, mais de 30 anos atrás.

Para Gilmar Rodrigues Gomes Junior, conhecido como Juninho, atual presidente da associação de moradores da Nova Holanda, a Maré parecia parada no tempo, sem que o desenvolvimento urbano acompanhasse o crescimento vertiginoso da população mareense ao longo dos anos. Ele acredita que a obra de saneamento vai sanar problemas comuns a todo o território. 

“Hoje, quando entope o esgoto, ele entra nas casas dos moradores. E esgoto traz doenças. Tem situações em que o morador, para entrar na sua casa, tem que ter um montão de pano de chão, porque na porta dele está cheio de água, de esgoto. O sonho de um morador é não alagar a casa dele durante a chuva, não perder móveis, não ter doenças, poder sentar na porta da casa dele sem mosquito, sem barata, o filho dele crescer num chão seco. Não tem preço. Então, essa obra vai ser muito boa para a comunidade toda”, acredita.

Segundo a Águas do Rio, a geração de empregos para a população local tem sido uma preocupação do projeto. Com um custo de R$120 milhões, o orçamento prevê a destinação de parte dessa verba para a contratação de trabalhadores que vivam na Maré, a fim de fortalecer a geração de empregos e a economia local.

A concessionária afirma que 1,3 bilhão de litros de esgoto deixarão de ser despejados por mês na Baía de Guanabara, o que equivale a 520 piscinas olímpicas. Sem dúvida, é um avanço para o meio ambiente e, principalmente, para a população que vive no entorno, mas o número representa menos de 3% do volume total mensal lançado na Baía, uma parcela muito pequena.

É impreciso traçar um ponto de partida, já que desde seus primeiros moradores, a Maré recorre aos mais diversos recursos para remediar a falta de acesso ao saneamento. Mas quando falamos de luta organizada, o arranque remonta à década de 1980, com Eliana Sousa e Silva eleita presidente da associação de moradores da Nova Holanda, através da Chapa Rosa, que protagonizou uma frente enérgica e pioneira na Maré pelo direito à água e esgoto.

Cadastro prevê garantia de direitos aos consumidores da Maré

Desde o início das obras, a Águas do Rio tem cadastrado as residências, com o objetivo de incluí-las no planejamento da obra e, assim, assegurar o que o serviço de água e esgotamento chegue para todas as pessoas.

Muitos moradores, entretanto, ainda não cadastraram suas residências. Uma das razões é o medo da instalação de hidrômetro e, com isso, ter que arcar com uma nova despesa: a da conta de água – A irregularidade do serviço ao longo de tantos anos afastou os moradores da Maré do compromisso com a conta de água, já que não viam sentido em pagar por um serviço que não era prestado. E mesmo com o saneamento em dia, não se pode esperar que o cálculo da conta de água de quem mora na Maré seja igual ao de quem não mora em favela.

A solução encontrada pela Águas do Rio tem sido conceder uma tarifa social. O valor de R$5,00 é pensado para que as casas possam arcar com a despesa sem pesar no bolso, e é aplicado na sustentabilidade da obra de saneamento.

O engenheiro ambiental e sanitarista Bruno Sales, que atua como gerente executivo de operações da Águas do Rio, responsável por obras de saneamento básico na Maré e nas demais favelas do Rio de Janeiro, explica por que a regularização das residências é positiva para os moradores: “É importante incentivar todos a terem o cadastro, terem o hidrômetro na sua casa, porque essa é a garantia de que a gente tá entregando, de fato, uma água com tratamento, uma água potável para beber, a concessionária garante essa água. Agora, os clientes que não têm cadastro, não têm o hidrômetro ou não estão ligados à nossa rede, a gente não tem como garantir a qualidade da água. E isso também garante à pessoa com o cadastro que ela ligue para o 0800, que ela consiga reclamar sobre falta d’água, solicitar um serviço direto à concessionária para desobstrução de esgoto. Então, é um relacionamento que ela constrói de forma direta com a concessionária.” 

Se você é morador de Rubens Vaz, Nova Holanda ou Parque Maré e ainda não cadastrou sua residência, deseja informações sobre a obra ou abastecimento, veja como fazer: 

Atendimento presencial:
Rua Teixeira Ribeiro, s/ nº, em frente ao colégio estadual João Borges de Moraes 
Dias e horários: de segunda a sexta, das 8h às 16h 
Atendimento por telefone e WhatsApp:
0800 195 0 195 
Dias e horários: 24 horas por dia, todos os dias da semana

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