CHAPA ROSA: MULHERES ABRIRAM CAMINHOS NA LUTA POR DIREITOS NA MARÉ

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Há mais de quatro décadas, movimento com liderança feminina transformou organização
comunitária em mobilização pela conquista de direitos

Por: Ana Paula Carvalho

Quem passa hoje pelas ruas da Nova Holanda, que, apesar dos desafios, contam com uma estrutura urbanizada, talvez não imagine que, há algumas gerações, o cenário era ainda mais desafiador. Naquele período, o acesso a serviços e direitos básicos era ainda mais limitado em uma Maré que começava a se organizar para reivindicar melhores condições de vida.

“A gente não tinha água, luz, saneamento básico… a gente não tinha nada. Primeiro a gente pegava água depois da Avenida Brasil. Depois, a gente começou a pegar na [rua] Flávia Farnese. Mas, aqui na Nova Holanda, aqui mesmo no conjunto, levou muito tempo”, conta dona Helena Edir Vicente, de 76 anos, uma das diretoras e fundadoras da Redes da Maré que se tornou referência na luta pela garantia de direitos no território. 

Cansadas de enfrentar o cotidiano marcado pela escassez de recursos, mulheres da Maré deram origem, há 42 anos, a um grupo formado majoritariamente por elas. Após meses de mobilização, com convites a todos os interessados em construir um movimento em defesa dos direitos no território, o grupo realizou uma série de encontros até decidir disputar as eleições para a gestão da Associação de Moradores da Nova Holanda. 

Na contramão de um período marcado pelo forte controle do Estado sobre as favelas, a Chapa Rosa deu início a um trabalho independente, focado em reivindicar as melhorias que os moradores necessitavam. “Além da repressão, nós éramos abandonados. E para conseguir as coisas nós fomos obrigados a enfrentar o governo à base de ‘paulada’. A gente batia de frente com eles (militares no período da Ditadura)”, conta Sebastião de Souza, de 73 anos, integrante da Chapa Rosa desde sua criação. 

Foi dessa maneira, relembra Sebastião, que conquistas importantes foram alcançadas: “Na época não tinha creche, não tinha posto saúde, não tinha nada. Só depois da organização das comunidades, formando associação de moradores, que o trabalho começou a render”, conta. 

Saneamento: uma questão de gênero? 

Quando a água não é tratada, o esgoto transborda e falta coleta regular de lixo, as mulheres são as primeiras a sentirem os impactos da ausência dessa política pública. Isso acontece porque, embora elas tenham índices de acesso a saneamento ligeiramente superiores aos de homens, segundo levantamento da Agência Nacional de Águas e Saneamento Básico (ANA), são elas que passam a maior parte do tempo em função do cuidado. 

O impacto da falta de saneamento básico vai além da piora nas estatísticas — ele atravessa a rotina: é a criança que adoece e deixa de ir à escola; é a mãe que deixa de trabalhar ou estudar para cuidar do filho doente; ou a mulher que deixa de iniciar seu negócio por falta de acesso aos direitos mais básicos. 

Essa ausência coloca mulheres e meninas em uma situação concreta de maior vulnerabilização. No Brasil, 4,69 milhões de mulheres vivem em domicílios sem água canalizada, 44,7 milhões não têm acesso a esgotamento sanitário seguro e quase 2 milhões vivem sem banheiro de uso exclusivo, segundo levantamento da ANA. 

A falta desses serviços amplia também a exposição a outros tipos de risco. Em março de 2026, durante a edição brasileira do Femina Vox, fórum internacional voltado ao protagonismo feminino, a diretora da agência, Cristiane Battiston, ressaltou que a necessidade de buscar água ou de utilizar instalações sanitárias inadequadas torna mulheres e meninas mais vulnerabilizadas e as expõe a diferentes formas de violência. 

A luta continua 

Um dos avanços conquistados às custas das reivindicações é a grande obra realizada pela Águas do Rio, que tem o objetivo de solucionar demandas históricas, levando infraestrutura sanitária para as favelas da Maré. 

Para dona Helena, essa mudança é fruto do movimento que começou há pouco mais de 40 anos: “Aquela influência da Chapa Rosa continua. Menos, porque muitas coisas mudaram, mas a gente ainda tem o respeito. A gente continua podendo dialogar com as instituições, o que não acontece em outras comunidades”, afirma. 

Apesar dos avanços, parte dos desafios permanece e é por isso que a luta não deve parar.

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