Por Pâmela Carvalho
Todo mês de julho, quando é retomado o debate do Dia Internacional da Mulher Negra Latino-Americana e Caribenha e do Dia Nacional de Tereza de Benguela e da Mulher Negra, uma questão precisa ser recolocada para reflexão: o que significa transformar memória em política pública? Porque, se o 25 de julho nasce da organização de mulheres negras em escala continental, desde o encontro realizado em Santo Domingo, em 1992, e se no Brasil passa a carregar também o nome de Tereza de Benguela, liderança quilombola que governou um território de liberdade, então essa data não pode ser reduzida à celebração protocolar de trajetórias excepcionais. Ela convoca uma leitura mais exigente sobre o presente: onde estão as instituições que reconhecem mulheres negras como produtoras de conhecimento, de cidade, de cuidado e de futuro?
Na Maré, essa pergunta ganha chão para caminharmos na reflexão. Somos um território majoritariamente negro. Segundo o Censo Maré, produzido pela Redes da Maré, 62,1% da população se autodeclara preta ou parda. Estamos falando de um território atravessado por desigualdades raciais, territoriais, econômicas e institucionais, mas também de um território que produz pensamento, cultura, linguagem, estratégias de sobrevivência e formas próprias de elaboração política. O erro histórico do Estado brasileiro foi tratar as favelas como lugares a serem administrados pela falta, pela suspeição ou pela intervenção. A Maré mostra outra coisa: onde o Estado muitas vezes chega de forma descontínua, militarizada ou insuficiente, a população cria alternativas de organização social.
É nesse ponto que o Julho Negro precisa ser compreendido como mais do que uma agenda de memória. Ao reunir o 25 de julho, a lembrança das lutas negras latino-americanas, a memória de Tereza de Benguela e as denúncias contra o racismo, a militarização e as desigualdades no Sul Global, o Julho Negro reorganiza o modo como olhamos para a política. Ele afirma que a vida negra não pode ser pensada somente pela ótica da violência, da perda, do luto. A vida negra precisa ser pensada antes: na infância, na escola, no acesso à saúde, na cultura, no direito ao território, no direito de sonhar sem pedir licença.
É a partir desse entendimento que nasce a Casa Preta da Maré. Criada pela Redes da Maré em 2019, ela se constitui como uma frente de trabalho voltada para enfrentar o racismo estrutural a partir de processos formativos, produção de conhecimento, fortalecimento de identidades negras e incidência política. Seu ponto de partida é construir pensamento crítico sobre raça, favela e identidade, considerando a Maré não como objeto de estudo, mas como território de formulação. Essa inversão é fundamental. Durante muito tempo, as favelas foram pesquisadas, descritas, classificadas e diagnosticadas por olhares externos. A Casa Preta da Maré aposta em outra direção: produzir conhecimento situado, com compromisso territorial, escuta comunitária e responsabilidade política.
Essa é a tese que o 25 de julho nos permite lançar: mulheres negras, quando constroem instituições, não estão apenas ocupando espaços. Estão alterando a forma como a sociedade compreende o que é instituição. Um equipamento negro, territorializado e comprometido com a vida da população não se organiza somente em torno de prédios, atas, editais ou relatórios. Ele se organiza em torno da capacidade de reconhecer problemas históricos, formar pessoas, criar linguagem pública, disputar orçamento, produzir dados e transformar experiência coletiva em agenda política.
A Escola de Letramento Racial, as formações, os cineclubes, os clubes de leitura, as ações culturais, as pesquisas, os espaços de escuta e os processos de articulação comunitária não são atividades soltas. Elas compõem uma metodologia. Ao trabalhar raça, memória, identidade, cultura e território, a Casa Preta da Maré intervém no ponto mais sensível do racismo brasileiro: sua capacidade de naturalizar desigualdades e fazer parecer individual aquilo que é estrutural. Quando jovens negros da Maré discutem racismo, quando mulheres negras elaboram suas experiências, quando dados sobre a população negra do território são produzidos e circulam, quando a cultura deixa de ser tratada como ornamento e passa a ser entendida como direito, o que está em curso é uma disputa sobre quem pode interpretar o Brasil.
Essa disputa é ainda mais urgente porque o racismo no Brasil também funciona pela administração do tempo. Para a população negra, muitas vezes, o futuro é adiado. A escola é interrompida, a circulação é vigiada, o cuidado chega tarde, a política pública exige deslocamentos impossíveis, a violência armada suspende consultas, aulas, encontros e projetos de vida. Na Maré, falar de direitos sem falar de segurança pública, mobilidade, saúde mental, educação e cultura é produzir uma análise incompleta. Por isso, o trabalho da Casa Preta da Maré se aproxima daquilo que Tereza de Benguela simboliza: a capacidade de governar a vida coletiva em meio à ameaça, de organizar inteligência política em meio à violência, de criar continuidade onde o poder tenta impor interrupção.
