Dados sobre violência e saúde na Maré serão monitorados em observatório lançado pela Fiocruz

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A plataforma reúne informações de três territórios de favela e revela os impactos da violência armada para a saúde da população

Por Gabrielle Gonçalves

Os números noticiados ainda não são capazes de mostrar como é viver cercado pelo medo. Depois das vidas interrompidas, das pessoas feridas e das clínicas fechadas, ficam as sequelas causadas pelo estado de alerta constante, pela desesperança no amanhã e pela separação forçada entre famílias e moradores. E como contabilizar esses efeitos? Como resposta a esse apagão de dados, a Fiocruz lançou na última quinta-feira (25) o Observatório dos Impactos da Violência Armada na Saúde em Favelas e Periferias do estado do Rio de Janeiro, no auditório da Escola Politécnica de Saúde Joaquim Venâncio.

O projeto é coordenado pela Cooperação Social da Presidência da Fiocruz e pelo Programa Institucional de Política de Drogas, Direitos Humanos e Saúde Mental da Fiocruz (Pdmhsm/Fiocruz), com apoio do Programa Institucional de Violências e Saúde. Na prática, ele funciona como uma plataforma em que pessoas podem consultar e depositar dados sobre o tema. Espera-se que o acesso a essas informações garantam uma maior autonomia de moradores, pesquisadores e organizações da sociedade civil na cobrança sobre estratégias e políticas públicas relacionadas à saúde e violência armada.

O evento contou com duas mesas expositivas. A primeira, teve participação de Francisco Netto, representante do Pdmhsm/Fiocruz; Cristiane Vicente, doutora em Saúde Pública pela Escola Nacional de Saúde Pública Sergio Arouca (Ensp/Fiocruz); Luciane Lindemeyer, representante do Sindicato dos Servidores de Ciência, Tecnologia, Produção e Inovação em Saúde Pública (Asfoc-SN); Tiago Marino, professor da Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro e desenvolvedor do site do observatório; e Heitor Silva, coordenador da Educação de Jovens e Adultos da Fiocruz (EJA/Fiocruz). 

As falas destacaram efeitos claros da violência armada na saúde, como o uso excessivo de calmantes e antidepressivos após episódios de tiroteio. Outras práticas que funcionam como pano de fundo para esse cenário, como o racismo estrutural e a política discriminatória de combate às drogas também foram destacadas. “No Atlas da Violência 2026, vemos que as vítimas de violência são, majoritariamente, pessoas negras, sejam crianças, jovens, mulheres, idosos, pessoas com deficiência ou a população LGBT. O alvo tem cor, e isso é necropolítica feita pelo Estado”, afirmou Cristiane Vicente.

A segunda mesa “Enfrentamento cotidiano da violência é possível?” contou com os convidados Leonardo Bueno; Giovane Vieira, orientadora educacional da EJA/Fiocruz; Fátima Cecchetto, representante do Programa Institucional de Violências e Saúde; Matheus Silveira, presidente do Conselho Comunitário de Segurança da AISP do 22º BPM; com a mediação de Heitor Silva. O momento trouxe reflexões sobre a falta de aulas em dias de operação policial e as dificuldades no processo de aprendizagem de alunos que enfrentam cenários de insegurança territorial.

Para Leonardo Bueno, coordenador do Observatório dos Impactos da Violência Armada na Saúde em Favelas e Periferias do estado do Rio de Janeiro, o projeto propõe um debate justo e coerente sobre esse tema urgente que afeta, principalmente, a população favelada. “O observatório é um passo inicial e está aberto para que a sociedade e as instituições pensem juntas em soluções para o problema da violência nos territórios. Hoje, as evidências apontam que a lógica da repressão, quando adotada como política de Estado, acaba adoecendo ainda mais a população”, afirmou o profissional.

A plataforma já está disponível para consulta de todas as pessoas e prevê sua primeira publicação —  um protocolo sobre segurança escolar — para o mês de julho deste ano.

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