O antirracismo no dia a dia das escolas na Maré

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Projeto desenvolvido em 23 escolas aproxima política nacional do cotidiano escolar e enfrenta desafios impostos por desigualdades históricas

Por Gleusa Santos

Edição #169 – Jornal Impresso do Maré de Notícias

Racismo, identidade, pertencimento e representatividade são temas que vêm aparecendo cada vez mais nas salas dos professores, nas formações pedagógicas e nas atividades das escolas da Maré. Em um território onde a maioria da população jovem é negra e onde a rotina escolar frequentemente é atravessada por impactos diversos da desigualdade, como o racismo ambiental, precariedade na infraestrutura e a violência armada, educadores têm buscado transformar essas discussões em parte do dia a dia da aprendizagem.

Esse movimento ganhou força nos últimos dois anos com a chegada da Política Nacional de Equidade, Educação para as Relações Étnico-Raciais e Educação Escolar Quilombola (PNEERQ). A Maré passou a integrar uma experiência piloto da iniciativa, que hoje envolve 23 escolas do território e reúne redes de ensino, gestores, professores e organizações locais na construção de práticas de educação antirracista.

Juliana Ângelo, professora da rede estadual e Agente de Governança Local da PNEERQ, acompanha esse processo nas escolas estaduais, dialoga com gestores e professores e ajuda a transformar as diretrizes da política em ações concretas. Para ela, um dos principais desafios é garantir que a educação sobre as relações étnico-raciais esteja presente durante todo o ano letivo, e não apenas em datas específicas do calendário escolar: “O meu papel tem sido estar próxima das escolas, ouvir gestores e professores, acompanhar o que já está sendo feito e ajudar para que essas ações ganhem continuidade e não sejam apenas iniciativas pontuais.” 

Juliana avalia que as escolas têm avançado na valorização das identidades negras e no enfrentamento do racismo. Em 2026, nas formações contínuas em 23 escolas da Maré, professores, coordenadores e gestores compartilham experiências e discutem caminhos para incorporar esses temas ao cotidiano escolar.

Uma política que chega pelo território

Desde 2024, a Maré integra uma experiência piloto de territorialização da PNEERQ, construída em articulação entre a Secretaria de Educação Continuada, Alfabetização de Jovens e Adultos, Diversidade e Inclusão (SECADI/MEC), a Secretaria de Estado de Educação do Rio de Janeiro (SEEDUC-RJ), a Secretaria Municipal de Educação do Rio de Janeiro (SME-Rio), as redes de ensino e a Redes da Maré. A iniciativa busca aproximar a política do cotidiano das escolas públicas do território.

Para Lara Vilela, Coordenadora-geral de Educação para as Relações Étnico-Raciais (SECADI/MEC), a participação de organizações do território é fundamental para que a política chegue às escolas de forma conectada às realidades locais. Segundo ela, parcerias com organizações ajudam a traduzir as diretrizes nacionais para os diferentes contextos do país. “Precisamos de pessoas que vivem essas realidades para nos apoiar na implementação da política. São parceiros essenciais para pensar a implementação, o acompanhamento e a continuidade da PNEERQ.”, concluiu.

Desafios para transformar a política em prática em território de favelas

Fazer com que a educação antirracista esteja presente no cotidiano escolar passa pela formação dos profissionais da educação, pelo acesso a materiais pedagógicos e pela incorporação do tema no planejamento escolar. Na Maré, esses desafios se cruzam com questões históricas do território. Escolas que enfrentam interrupções de aulas provocadas pelas operações policiais, comunidades impactadas pela violência armada e equipes pedagógicas que lidam diariamente com múltiplas demandas precisam, ao mesmo tempo, encontrar espaço para construir novas práticas educativas.

Fernanda França, mulher preta, cria da Maré e articuladora da Redes da Maré que atua diretamente nas formações realizadas junto às equipes escolares, observa uma mudança na forma como esses debates vêm sendo recebidos. “Tenho percebido uma receptividade crescente. Muitos educadores enxergam esses encontros como espaços importantes de formação e troca. Frequentemente, compartilham experiências de discriminação, silenciamento ou descobertas sobre sua própria identidade racial. Isso mostra que falar de educação antirracista também é falar de trajetórias de vida”, afirma.

Entre as experiências que mais a marcaram está a de uma educadora que, após participar de uma formação, revisou os materiais utilizados em sala de aula e percebeu a ausência de referências negras nas atividades propostas aos estudantes. A partir dessa reflexão, passou a buscar novos conteúdos e a desenvolver práticas que valorizassem a história e as contribuições da população negra.

Embora previsto nas Leis nº 10.639/2003 e nº 11.645/2008, o ensino das histórias e culturas afro-brasileira, africana e indígena ainda ocorre de forma desigual nas redes de ensino, muitas vezes restrita a ações pontuais.

Segundo o MEC, as desigualdades raciais na educação permanecem evidentes em indicadores como acesso à creche, permanência na escola, conclusão do ensino médio e desempenho educacional. “Há uma desigualdade persistente entre estudantes brancos e negros. Quando observamos a população de 15 a 17 anos, vemos que, embora tenha havido crescimento na permanência e na conclusão do ensino médio para todos os grupos, os estudantes brancos continuam apresentando índices mais elevados de acesso e conclusão dessa etapa em comparação aos estudantes negros”, afirma Lara Vilela, da  SECADI/MEC.

A experiência na Maré mostra que a articulação entre políticas públicas, redes de ensino e sociedade civil é fundamental para transformar diretrizes em práticas concretas nos territórios periféricos e racializados, garantindo sua efetivação no cotidiano escolar. No contexto do Julho Negro – articulação internacional contra a militarização, o racismo e o apartheid no mundo – essas discussões ganham ainda mais visibilidade, reforçando a importância de enfrentar o racismo estrutural também por meio da educação antirracista nas escolas, sem perder seu caráter permanente ao longo de todo o ano letivo.

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