Intervenção urbana reforça a importância da construção de novas iniciativas para um diálogo sobre segurança pública; o ato acontece será no seminário “Memória, Justiça, Reparação e Não Repetição” da Redes da Maré
Por Thayssa Rios
O Memorial das Vítimas da Violência Armada no Conjunto de Favelas da Maré, que preserva a memória de pessoas que tiveram suas vidas interrompidas pela violência, será reinaugurado nesta quinta-feira (5), às 17h30, na Praça da Paz, na Rua Ivanildo Alves, na favela Nova Maré. O memorial terá o nome de mais 18 pessoas desde a inauguração em 2022, quando a intervenção urbana já preservava a memória de 127 vítimas com seus nomes gravados em um mural de azulejos.
A intervenção urbana da Redes da Maré torna visível para a sociedade e para o poder público parte de um trabalho reflexivo da organização sobre quais corpos comovem a sociedade e impulsionam a demanda por uma política de segurança pública diferente da que é empregada há anos no estado do Rio do Janeiro, baseada no enfrentamento bélico e na não garantia de direitos dos moradores de favelas. Além de demarcar a memória das vítimas e o direito ao luto dos seus familiares, a partir da revitalização do espaço, a intervenção busca também mostrar a importância do urbanismo social para o diálogo sobre segurança pública nos territórios.
“O memorial demarca a memórias das vítimas e como o Estado atua em um território de favela, mas também amplia a possibilidade de articular, junto da perspectiva do urbanismo social. É um espaço revitalizado para o uso dos moradores, junto a Praça da Paz temos a Areninha, que é um dos equipamentos da Redes da Maré, e as intervenções artísticas na região, como a do coletivo Maré Crew”, destaca Tainá Alvarenga, coordenadora do Eixo Direito à Segurança Pública e Acesso à Justiça da Redes da Maré.
Urbanismo e segurança pública
Nos últimos dez anos, uma das atuações da Redes da Maré no território é a de produzir e sistematizar dados sobre os impactos da violência armada no conjunto de quinze favelas da Maré. Desde 2016, o projeto De Olho na Maré, do Eixo Direito à Segurança Pública e Acesso à Justiça da organização, faz o monitoramento contínuo dos impactos e recolhe os dados de confrontos dos grupos armados e de operações policiais no território – anualmente publicados e divulgados. O trabalho de acompanhamento in loco das operações policiais na Maré, no plantão de acolhimento das violações sofridas pela população, é fruto da atuação dos próprios moradores e de coletivos sociais que há décadas estão no território na busca pela garantia de direitos – entre eles o da segurança pública, que é fundamental para que todos os outros direitos dos moradores sejam preservados.
Em dez anos de registros, os dados da série histórica de confronto entre os grupos armados no território mostram que, em 2017, foram registrados 41 tiroteios no local do memorial que sofria constantemente com confrontos armados entre os grupos. Desde 2022, ano em que foi inaugurado o memorial, os registros foram diminuindo e chegaram a cair de 8 até um registro, em 2023. Desde então, já com o memorial neste espaço, nenhum outro confronto armado entre os grupos foi registrado na região. Os números estão reunidos na 9ª edição do “Boletim Direito à Segurança Pública na Maré – dados 2025″, que traz a série histórica de monitoramento do projeto De Olho na Maré, entre 2016 e 2025.
“Os dados do Boletim sinalizam a diminuição dos confrontos nessa área, então acreditamos que a intervenção urbana tem um impacto importante na dinâmica territorial”, conclui Tainá Alvarenga.
Patrocínio cultural para reinauguração
O memorial foi concretizado pelo projeto Azulejaria, que faz parte do Eixo Direitos Urbanos e Socioambientais da Redes da Maré, em 2022. Ele foi realizado por uma equipe formada por artistas e profissionais que acompanharam o trabalho de produção viabilizado por oficinas, nas quais familiares produziram durante cinco meses as peças com o nome dos entes que perderam. As mães e familiares das vítimas também criaram um manifesto que está presente no painel.
Em 2025, a Redes da Maré participou de um edital público do Conselho de Arquitetura e Urbanismo do Rio de Janeiro (CAU/RJ) de apoio a iniciativas sem fins lucrativos. A organização foi premiada pelo Edital de Patrocínio Cultural no valor de R$50 mil para realizar a manutenção do Memorial das Vítimas da Violência Armada da Maré.
Para o presidente do Conselho, Sydnei Menezes, o diferencial do projeto está no seu impacto pedagógico, histórico e urbanístico:
“Este fomento valoriza a iniciativa da Redes da Maré, destacando seu trabalho na preservação da memória da comunidade. É um memorial em homenagem às vítimas de violência armada, que apresenta diversos desdobramentos sob o ponto de vista urbano”.
A manutenção do Memorial reafirma a função social da arquitetura como ferramenta de reparação simbólica e de luta por justiça. Reafirmando ainda um compromisso ético e político na busca pela garantia de direitos em favelas com uma ressignificação simbólica do espaço.
“As intervenções urbanísticas, não apenas fortalecem a região, marcada pela violência armada, mas possibilitam a construção de novas iniciativas para uma cidade mais justa”, ressaltou Liliane dos Santos, tecedora de apoio institucional da Redes da Maré, na premiação do edital.
Este ano, uma semana antes da reinauguração, representantes do Conselho de Arquitetura e Urbanismo do Rio de Janeiro (CAU/RJ) estiveram presentes para uma visita da revitalização do Memorial, no dia 28 de outubro. Os moradores da Maré poderão participar do Seminário “Memória, Justiça, Reparação e Não Repetição: memorial das vítimas da violência armada na Maré”, entre os dias 5 a 7 de novembro, com encontros, debates, oficinas e conversas culturais para fortalecer a luta pelo direito à memória e à justiça das vítimas da violência armada e de seus familiares. Será neste seminário a reinauguração oficial. As atividades gratuitas e abertas ao público vão acontecer na Areninha Cultural Herbert Viana – na Nova Maré (programação completa disponível no Instagram da Redes da Maré).
