Ballroom Maré fortalece cena cultural LGBTQIAPN+ no território

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Por Marko Costa

Edição #169 – Jornal Impresso do Maré de Notícias

A cultura Ballroom vem ganhando força no Conjunto de Favelas da Maré, reunindo pessoas LGBTQIAPN+ em um espaço de expressão artística e convivência. Inspirado nas comunidades negras e latinas LGBTQIAPN+ de Nova York nas décadas de 1970 e 1980, o movimento chegou ao território em 2017 e, desde então, passou a ocupar equipamentos culturais e espaços públicos da favela por meio de batalhas de vogue, performances, dança, moda e outras linguagens artísticas.

A iniciativa alcançou uma nova fase em 2023, quando realizou sua primeira grande ball oficial no Centro de Artes da Maré. Viabilizado com recursos obtidos na primeira edição do Lab Maré, iniciativa da Redes da Maré, o evento marcou a consolidação de um projeto que, ao longo dos anos, também passou pela Areninha da Maré e pelo Museu da Maré, reunindo participantes de diferentes regiões da cidade.

Pesquisadores que analisam a expansão da cultura Ballroom nas periferias brasileiras apontam que, ao chegar no país, o movimento passou a dialogar com expressões culturais locais, incorporando referências como o funk, o passinho e outras linguagens produzidas por jovens negros e LGBTQIAPN+. 

O diagnóstico é apresentado no artigo “Entre vogues e mandelões: a cultura Ballroom brasileira e suas performances afrodiaspóricas”, apresentado no Encontro de Estudos Multidisciplinares em Cultura (ENECULT), promovido pela Universidade Federal da Bahia (UFBA). Segundo os autores, essa adaptação fez com que o Ballroom desenvolvesse características próprias no Brasil, sem perder sua origem ligada às comunidades negras e latinas norte-americanas.

Da ocupação cultural ao fortalecimento de redes

Sob a liderança das artistas Legendary Lua Brainer e Legendary Kill Bill, o Ballroom Maré consolidou uma trajetória marcada pela ocupação de espaços culturais do território. Para Lua, realizar os eventos dentro da favela faz parte da proposta do coletivo.

Lua Brainer em Ballroom na Areninha da Maré | Foto: Gabi Lino

“Hoje, a gente já tem um projeto bem forte, pensando o ballroom dentro do território de favela, e pensando nesses corpos nessa movimentação artística e cultural. A Maré não é só um lugar de passagem para a nossa cultura, é o ponto de partida. Trazer a nossa vivência LGBTQIAPN+ para o centro da favela, ocupando museus e praças, é mostrar que a nossa arte é uma ferramenta de sobrevivência e de celebração de quem nós somos. O Ballroom Maré existe para que esses corpos saibam que eles pertencem ao território e que suas histórias importam”, diz.

Estudos sobre a cultura Ballroom no Brasil apontam que as balls cumprem uma função que vai além das apresentações artísticas. Além de difundir manifestações culturais como o vogue, esses encontros favorecem a construção de redes de apoio, a convivência comunitária e a afirmação de identidades negras, periféricas e LGBTQIAPN+. Esse entendimento aparece tanto em pesquisas sobre a cena brasileira quanto em entrevistas com pesquisadores e agentes culturais publicadas pelo Periferia em Movimento.

Lua afirma que esse impacto também pode ser percebido na participação crescente de familiares durante os eventos realizados na Maré.

“A Ballroom Maré vem provocando diversas vidas, não só vidas LGBTs, mas famílias LGBTs também. A gente tem um dado muito grande de participação familiar. Quando fazemos Ballroom na Maré, muitas famílias estão ali presentes prestigiando a arte de um artista da família. A Ballroom Maré vem trazendo esse impacto de educação, pedagogia de gênero, política, resistência artística e fortalecimento cultural dentro da favela.”

Segundo a artista, outro resultado desse processo é a circulação de pessoas de diferentes regiões da cidade para participar das atividades promovidas no território. O próximo objetivo do coletivo é conquistar um espaço fixo para ampliar a programação e fortalecer a rede construída ao longo dos últimos anos.

“A Ballroom Maré se tornou um grande polo de desenvolvimento de arte e cultura no território, e isso acabou atraindo diversas pessoas para viver essa experiência na Maré. O nosso sonho é ter um espaço fixo para que possamos ampliar ainda mais essa rede de apoio e acolhimento para pessoas cis e trans. Ter esse espaço como um patrimônio cultural da Maré seria incrível para todas nós e serviria de incentivo para outros territórios.”

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